A colheita de café arábica na região do Cerrado Mineiro terminou julho com 66% de conclusão, segundo dados da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) — um resultado levemente abaixo do registrado no mesmo período do ano passado, quando o índice chegava a 70%. O freio no ritmo veio de chuvas que surpreenderam produtores na última semana do mês, comprometendo operações em campo e levantando alertas sobre a qualidade das sacas.
Do total já colhido, 46% passou pelo beneficiamento, com rendimento médio de 500 litros por saca de 60 kg. O número, embora dentro de parâmetros operacionais, esconde um problema que preocupa os técnicos da cooperativa: a proporção de grãos verdes e café recolhido do chão está elevada, comprometendo a classificação física e o perfil de bebida dos lotes.
Entre os dias 24 e 25 de julho, um sistema de instabilidade cruzou diversas regiões do Cerrado Mineiro com acumulados que variaram entre 25 e 40 milímetros, acompanhados de rajadas de vento e registros pontuais de granizo. O momento não poderia ser pior: a colheita estava em plena aceleração, e o aumento repentino da umidade do solo obrigou a paralisia das máquinas e equipamentos em diversas propriedades.
Os técnicos de campo da Expocacer relatam que, além de travar a colheita mecanizada e o transporte, os ventos provocaram a derrubada de frutos secos que ainda estavam nas plantas. "Os ventos associados às precipitações intensificaram a queda de frutos secos que ainda permaneciam nas plantas, elevando o volume de café depositado no solo", informou a equipe técnica da cooperativa em boletim semanal. Esse café de chão, além de acumular impurezas, entra nos lotes e reduz a pontuação de qualidade.
O índice de catação — processo de separação manual de grãos defeituosos — permaneceu acima de 15% na última semana de julho, nível considerado elevado pelos especialistas da Expocacer. A alta participação de grãos verdes nas cargas é reflexo direto das condições climáticas atípicas e da necessidade de antecipar colheitas antes de novas chuvas, prática que compromete a maturação uniforme dos frutos.
Para os técnicos, o cenário exige atenção redobrada nas etapas seguintes da cadeia: beneficiamento criterioso e classificação rigorosa dos lotes são apontados como essenciais para preservar o valor comercial do produto. Em um mercado onde a diferenciação por qualidade define o preço final ao produtor, esse gargalo tem impacto direto na rentabilidade da safra.
Com a passagem do sistema de instabilidade, o tempo voltou a se estabilizar na região, e as temperaturas elevadas nos dias seguintes favoreceram a secagem dos frutos e a melhoria das condições de tráfego nas lavouras. Os modelos meteorológicos consultados pela Expocacer não indicam precipitações significativas até pelo menos 5 de agosto, abrindo uma janela importante para recomposição do ritmo operacional.
A expectativa da cooperativa é de avanço acelerado nas próximas semanas. No entanto, uma queda gradual de temperaturas está prevista, com mínimas podendo chegar a 8°C ao longo desta semana — condição que exige monitoramento constante, especialmente para o planejamento das operações noturnas e matutinas nas lavouras. Para o produtor do Cerrado, o recado dos técnicos é direto: acompanhar as atualizações climáticas diárias é agora parte indispensável da gestão da colheita.
Para o mercado brasileiro como um todo — e para os estados consumidores como Mato Grosso do Sul, cujo agronegócio dialoga de perto com as oscilações de oferta do café nacional —, a evolução dessa safra influencia diretamente os preços ao longo do segundo semestre. Qualquer redução na qualidade média dos lotes tende a pressionar a formação de preço nas categorias mais acessíveis do produto, impactando desde torrefadoras até o consumidor final.
Fontes: EXPOCACER