O mercado de soja fechou julho em alta no Brasil, impulsionado por uma valorização superior a 4% nos contratos futuros negociados na Bolsa de Chicago — mas o otimismo do curto prazo convive com um cenário de incerteza crescente para a safra 2026/27, ameaçada pela combinação de custos elevados, margens comprimidas e o risco concreto de um El Niño mais intenso nos meses decisivos para o desenvolvimento da lavoura.
A boa fase de julho teve raízes em três movimentos simultâneos: a escalada da tensão no Oriente Médio empurrou o petróleo para cima, a China intensificou as compras de soja americana e relatórios climáticos apontaram seca e calor sobre o cinturão produtor dos Estados Unidos. No pico do mês, a cotação do grão chegou a superar US$ 12,50 por bushel — patamar não visto há mais de dois anos. No encerramento de julho, o contrato com vencimento em novembro estava sendo negociado a US$ 11,92 por bushel.
O mês de agosto será de máxima atenção para os operadores do mercado. É durante esse período que se define o potencial produtivo da safra norte-americana — e qualquer oscilação climática nos estados produtores dos EUA tende a provocar movimentos bruscos nos preços. Para produtores brasileiros que ainda têm grãos em estoque ou negociações em aberto para a nova colheita, o momento exige cautela.
No Brasil, os prêmios se mantiveram firmes ao longo de julho e contribuíram para animar os negócios, mesmo com um câmbio que seguiu desfavorável para quem esperava uma conversão mais vantajosa. O saldo, ainda assim, foi positivo para quem comercializou durante o mês.
Rafael Silveira, analista e consultor da Safras & Mercado, avalia que a intenção de plantio da nova safra brasileira mantém perspectiva de crescimento de área, mas os desafios são substanciais. O Centro-Oeste segue como principal fronteira de expansão — em Mato Grosso, por exemplo, projeta-se avanço de aproximadamente 1,5% na área cultivada. Goiás também deve ampliar o cultivo, embora a situação financeira dos produtores gaúchos seja considerada mais delicada.
O problema começa antes mesmo do plantio: os fertilizantes acumularam altas expressivas no primeiro semestre, pressionando o custo de produção em toda a cadeia. "Esse cenário pode levar parte dos produtores a reduzir o nível de investimento em tecnologia e manejo, fator que tende a limitar o potencial produtivo da safra 2026/27", alertou Silveira. A boa notícia é que as produtividades elevadas das últimas temporadas ainda sustentam a viabilidade econômica da atividade — mas com folga menor do que nos anos anteriores.
O risco climático é o outro grande peso na balança. A expectativa de um El Niño mais forte do que o habitual preocupa especialmente porque sua influência deve se concentrar justamente nos meses em que a soja estará em estágios críticos de desenvolvimento. "Caso esse cenário se confirme, poderá haver impacto negativo sobre os níveis de produtividade", destacou o consultor. A Safras & Mercado adota a postura de não antecipar quebras de safra sem evidências concretas no campo, mas já trabalha com expectativa de produtividades potenciais abaixo das registradas na temporada anterior para a maioria das regiões.
Para os produtores sul-mato-grossenses, o cenário descrito pelos analistas ressoa de forma direta. O estado está entre os maiores produtores nacionais de soja e qualquer variação climática associada ao El Niño tende a afetar tanto o volume quanto a qualidade dos grãos colhidos entre janeiro e março de 2027. A pressão dos fertilizantes, que encarecem o custo por hectare, reforça a necessidade de planejamento financeiro rigoroso antes mesmo da semeadura.
O comportamento de agosto em Chicago será um termômetro importante: se os preços se sustentarem em patamares elevados, parte do risco pode ser administrada via travamento de preços futuro. Se a volatilidade ceder para baixo, as margens da safra 26/27 em Mato Grosso do Sul ficam ainda mais dependentes de um clima favorável — variável que, por ora, ninguém consegue garantir.
Fontes: CANAL RURAL, SAFRAS & MERCADO