Os preços internacionais do trigo voltaram a ceder nesta sexta-feira (31), com os contratos futuros negociados na Bolsa de Chicago (CBOT) registrando perdas na abertura do pregão — movimento que reflete a combinação de colheita avançada no Hemisfério Norte, presença massiva da Rússia no mercado exportador e expectativa de boa produção na Argentina, principal fornecedora do Brasil. Para o agronegócio sul-mato-grossense, que depende dos insumos e das cadeias ligadas à produção de grãos, o comportamento do cereal no mercado internacional é um termômetro importante.
O cenário é de pressão estrutural sobre os preços: a oferta global segue robusta, e os fundamentos que sustentariam uma recuperação das cotações ainda não se consolidaram. Após semanas de volatilidade causada pelas tensões no Mar Negro, o mercado retomou o foco nos dados concretos de produção e logística — e o que esses dados mostram favorece, por ora, os compradores, não os produtores.
Na abertura desta sexta, o contrato com vencimento em setembro de 2026 era negociado a US$ 6,54 por bushel, com recuo de 9,50 pontos. O vencimento dezembro/2026 caía 10 pontos, cotado a US$ 6,71 por bushel, enquanto o março/2027 marcava US$ 6,88 por bushel, com baixa de 9,50 pontos. A sequência de perdas em todos os vencimentos indica que o mercado não enxerga, no curto prazo, fatores suficientes para reverter a tendência de queda.
A colheita avança em ritmo firme nos Estados Unidos e nos demais grandes produtores do Hemisfério Norte, ampliando o estoque disponível e limitando qualquer movimento de recuperação. A Rússia, que mantém a liderança absoluta nas exportações mundiais, segue abastecendo o mercado internacional — embora o aumento dos fretes tenha reduzido parte da vantagem competitiva dos embarques russos nos últimos dias.
O Brasil ocupa um papel peculiar nesse mercado: é grande consumidor de trigo, mas produtor insuficiente para se abastecer. A dependência das importações — majoritariamente vindas da Argentina, mas também influenciadas pelas cotações de Rússia e Ucrânia — faz com que qualquer movimento nas bolsas internacionais reverbere diretamente no custo da farinha, do pão e de toda a cadeia alimentar nacional.
No Rio Grande do Sul, principal região tritícola do país, o plantio da safra de inverno entra na etapa final dentro do calendário recomendado. As condições climáticas seguem monitoradas pelos produtores gaúchos, e a evolução das lavouras nas próximas semanas será determinante para estimar o volume nacional da próxima temporada. Do lado argentino, as expectativas são positivas: uma boa safra no país vizinho pode reforçar o abastecimento brasileiro e contribuir para amortecer eventuais altas nos preços internos.
Para os agentes do agronegócio em Mato Grosso do Sul — estado que, embora não seja produtor expressivo de trigo, integra cadeias produtivas que consomem o cereal e sente os reflexos nas margens da pecuária e da avicultura —, o acompanhamento do mercado internacional permanece essencial. A combinação de oferta abundante, fretes elevados na Rússia e incertezas climáticas no Hemisfério Sul cria um ambiente de atenção redobrada.
O mercado deve continuar volátil nas próximas sessões, com o desempenho das lavouras argentinas e as decisões logísticas dos exportadores russos funcionando como principais variáveis. A estabilidade das cotações — ou uma eventual recuperação — dependerá de como esses fatores evoluirão ao longo de julho e agosto, meses decisivos para a definição do balanço global de oferta e demanda do cereal.
Fontes: CBOT, NOTÍCIAS AGRÍCOLAS