As cotações do trigo negociadas na Bolsa de Chicago (CBOT) iniciaram a sessão desta quarta-feira (29) em terreno positivo, sustentadas pela incerteza em torno do fluxo de exportações pelo Mar Negro — rota estratégica que responde por parcela expressiva do abastecimento global do cereal. O pano de fundo geopolítico, marcado pela continuidade do conflito entre Rússia e Ucrânia, segue ditando o humor dos mercados e alimentando a volatilidade nas negociações internacionais.
O movimento reflete uma dinâmica que se arrasta desde o início do conflito russo-ucraniano: qualquer sinal de perturbação logística nos portos da região é suficiente para acender o alerta entre traders e cooperativas ao redor do mundo. Para o Brasil — um dos maiores importadores do grão —, essa oscilação tem reflexos diretos no custo da farinha de trigo e, consequentemente, nos preços de pão, massas e outros itens da cesta básica.
Na abertura do pregão, o contrato com vencimento em setembro de 2026 era negociado a US$ 6,65 por bushel, uma alta de 0,45%. O papel para dezembro de 2026 avançava para US$ 6,82 por bushel, com ganho de 0,44%, enquanto o vencimento de março de 2027 subia para US$ 6,97 por bushel, com valorização de 0,35%. Os ganhos foram modestos, mas coerentes com um mercado que prefere operar em compasso de espera diante da incerteza geopolítica.
Apesar das projeções de uma safra robusta na Rússia — principal exportadora mundial do cereal —, analistas alertam que volume de produção não garante fluidez na cadeia de distribuição. A capacidade de escoamento depende de portos que operam sob risco de ataques e rotas marítimas sob constante tensão diplomática, o que cria um prêmio de risco embutido nos contratos futuros.
Mato Grosso do Sul não está imune a esse jogo de forças internacionais. O estado possui uma indústria de panificação e processamento de alimentos que depende diretamente do trigo importado, já que a produção nacional — concentrada no Sul do Brasil — ainda não supre a demanda interna. Quando os preços disparam em Chicago, o impacto chega às padarias de Campo Grande, Dourados e Três Lagoas com poucas semanas de defasagem.
Além disso, produtores sul-mato-grossenses que diversificam a carteira com contratos de grãos acompanham as oscilações da CBOT como referência para decisões de compra de insumos e planejamento de safra. A alta do trigo no mercado internacional pode, inclusive, pressionar o custo de rações animais que utilizam o farelo do cereal como componente — o que interessa diretamente ao setor pecuário do estado.
O mercado deve manter o comportamento errático enquanto não houver sinalizações mais claras sobre o cessar-fogo ou acordos de corredor humanitário no Mar Negro. Qualquer declaração diplomática entre os blocos envolvidos no conflito tem potencial de mover os papéis rapidamente em sentidos opostos. Traders e analistas de commodities recomendam cautela em posicionamentos de médio prazo até que o cenário geopolítico ofereça alguma previsibilidade.
No lado da oferta, a expectativa de colheita abundante na Rússia pode exercer pressão baixista nos próximos meses, caso a logística de exportação se normalize. Mas, por ora, a incerteza prevalece — e os compradores internacionais, incluindo os brasileiros, seguem pagando um extra por isso.
Fontes: CBOT, NOTÍCIAS AGRÍCOLAS