As cotações do açúcar voltaram a subir nas principais bolsas internacionais nesta quarta-feira (29), impulsionadas pela revisão da consultoria StoneX, que elevou a estimativa de déficit global da commodity na safra 2026/27 para 1,7 milhão de toneladas — sinalizando um mercado mais apertado do que se projetava e revertendo parte das perdas registradas na sessão anterior.
O movimento reflete um cenário de múltiplos fatores em disputa: de um lado, a menor disponibilidade global oferece suporte às cotações; de outro, a forte queda do petróleo no pregão anterior havia derrubado os preços ao reduzir a atratividade do etanol e elevar as expectativas de que as usinas direcionassem mais cana para a produção de açúcar. Agora, com o déficit revisado para cima, o mercado encontrou novo fôlego.
Por volta das 11h40 do horário de Brasília, o contrato de outubro do açúcar bruto na Bolsa de Nova York era negociado a 14,56 cents de dólar por libra-peso, com alta de 1 ponto. O contrato para março de 2027 avançava para 15,45 cents por libra-peso, ganho de 4 pontos em relação ao fechamento anterior.
Em Londres, o açúcar branco para outubro era cotado a US$ 457,60 por tonelada, alta de 80 pontos, enquanto o contrato de dezembro subia para US$ 458,30 por tonelada, avanço de 160 pontos. A tendência de alta foi uniforme nas duas praças, evidenciando que a revisão da StoneX repercutiu de forma ampla entre os investidores globais.
Além do balanço global, o mercado segue de olho nas condições climáticas nos principais países produtores. O fenômeno El Niño ganhou protagonismo nas análises porque pode alterar o regime de chuvas e, com isso, influenciar diretamente a produtividade da cana-de-açúcar — especialmente no Centro-Sul do Brasil, que concentra a maior fatia da produção nacional.
Segundo pesquisadores do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), os efeitos do El Niño tendem a ser predominantemente favoráveis ao desenvolvimento dos canaviais nessa região, já que a previsão é de chuvas mais frequentes no segundo semestre. Esse volume hídrico pode beneficiar a produtividade tanto no encerramento da safra 2026/27 quanto na temporada seguinte. No entanto, o excesso de precipitações carrega um risco: atrasar a colheita e limitar o avanço do ATR (Açúcar Total Recuperável), com os impactos mais críticos esperados a partir de setembro.
No mercado físico brasileiro, os preços do açúcar cristal branco seguem oscilando no estado de São Paulo. O Cepea relata que compradores estão adotando postura cautelosa, aguardando possíveis recuos nas cotações diante da perspectiva de aumento da oferta — o que tem mantido os negócios em ritmo pontual e sem grandes movimentações de volume.
Para Mato Grosso do Sul, que tem no agronegócio a espinha dorsal de sua economia, a volatilidade do mercado sucroenergético tem impacto indireto mas relevante. O estado abriga usinas de cana-de-açúcar e produtores que monitoram de perto tanto as cotações internacionais quanto o comportamento climático sazonal. A perspectiva de um déficit global maior pode sustentar margens para o setor no médio prazo, mas a incerteza em torno do El Niño exige atenção redobrada à logística de colheita nos próximos meses.
O mercado sucroenergético entra no segundo semestre de 2025 em compasso de espera: os fundamentos globais apontam para escassez, mas o clima tem a palavra final sobre quanto açúcar chegará às prateleiras — e a que preço.
Fontes: STONEX, CEPEA, NOTÍCIAS AGRÍCOLAS