Com cerca de 30% da safra de café arábica 2026/27 ainda aguardando colheita, as chuvas que castigaram as principais regiões produtoras do Brasil ao longo de julho acenderam um alerta entre pesquisadores e cafeicultores: a qualidade dos grãos — especialmente a bebida — pode ter sido comprometida de forma relevante, e os prejuízos reais só virão à tona quando os lotes começarem a ser beneficiados e negociados nos próximos meses.
A situação preocupa porque o calendário jogou contra os produtores. Em vez de se distribuir ao longo do mês, o volume de chuvas em diversas regiões se concentrou justamente no período final de julho, quando a colheita se aproxima do encerramento e a varrição — recolhimento dos grãos que caíram no chão — domina as operações de campo. Esse é, por natureza, o momento em que os frutos ficam mais expostos e vulneráveis.
Segundo análise do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), vinculado à Esalq/USP, os grãos que já haviam caído no solo desde o começo de julho foram os mais afetados. Ao ficarem expostos às chuvas por um período mais longo, esses frutos acumulam umidade excessiva, o que favorece a fermentação indesejada e compromete diretamente o perfil sensorial da bebida — fator determinante para a classificação e o preço do café no mercado.
Os colaboradores do Cepea que acompanham a colheita in loco estimam que essa parcela remanescente de 30% da produção representa um volume expressivo dentro de uma safra que já vinha sendo monitorada de perto pelo setor. A real extensão dos danos, porém, permanece incerta: cada lote precisará passar pela prova de xícara e pelo processo de beneficiamento antes que produtores e compradores consigam dimensionar com precisão quanto da qualidade foi perdido.
Em anos normais, as precipitações de julho chegam de forma mais distribuída, permitindo que os cafeicultores adaptem o ritmo da colheita e acelerem o processamento dos lotes mais críticos. Desta vez, a concentração das chuvas nos últimos dias do mês pegou muitas propriedades em estágio avançado de colheita, quando a capacidade de manobra é menor e os terreiros e tulhas já estão parcialmente ocupados com o café colhido anteriormente.
O impacto não se restringe apenas ao grão em si. A logística de secagem também é afetada: com maior umidade no ar e nos terreiros, o tempo necessário para reduzir a umidade dos grãos ao patamar adequado aumenta, elevando custos operacionais e o risco de desenvolvimento de fungos. Para os cafés de qualidade superior, que dependem de um processo de secagem controlado para preservar suas características sensoriais, o desafio é ainda maior.
Mato Grosso do Sul não figura entre os grandes estados produtores de café, mas o mercado cafeeiro nacional tem peso direto sobre o agronegócio regional. O estado é um importante consumidor de insumos e de serviços voltados ao setor rural, e as oscilações de preço e oferta do café arábica repercutem nas negociações de commodities e nos índices que balizam contratos no campo sul-mato-grossense. Além disso, o café processado movimenta a cadeia de abastecimento de supermercados, cooperativas e distribuidores em todo o estado.
No cenário nacional, qualquer redução na oferta de cafés de qualidade tende a pressionar os preços para cima — o que pode significar tanto oportunidade para os produtores que conseguirem preservar a bebida de seus lotes quanto aumento de custo para a indústria e para o consumidor final. O mercado só terá respostas mais concretas quando o escoamento da safra ganhar tração nas próximas semanas.
Fontes: CEPEA/ESALQ-USP