Os contratos futuros da soja negociados na Bolsa de Chicago (CBOT) ensaiaram uma recuperação nesta terça-feira, 28 de julho, um dia após registrarem perdas superiores a 3%. O movimento foi predominantemente técnico — impulsionado pela cobertura de posições vendidas — mas ganhou fôlego com a piora nas condições das lavouras norte-americanas, revelada pelo relatório semanal do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). Para os produtores brasileiros, a notícia que interessa de perto é que os preços nos portos do país continuam sustentados acima de R$ 150,00 por saca.
O cenário desta semana resume bem a tensão que domina o mercado de grãos: de um lado, a pressão do petróleo em queda — que derrubou o óleo de soja e limitou os ganhos da commodity — e, de outro, alertas climáticos no Cinturão do Milho e da Soja dos Estados Unidos (Corn Belt) que podem comprometer a safra americana e, por consequência, elevar a demanda pelo grão brasileiro.
Ao término das negociações desta terça, os principais vencimentos da soja na CBOT avançaram entre 2,75 e 6 pontos, com o contrato de agosto fechando a US$ 12,11/bushel, o novembro a US$ 12,19 e o janeiro de 2027 a US$ 12,33. O farelo colaborou com alta superior a 1%, enquanto o óleo de soja seguiu em baixa, pressionado pela queda de mais de 4% no petróleo — cujas perdas acumuladas nos três pregões anteriores chegaram a 17%.
"Na semana passada estávamos em um ambiente melhor, é um momento de recuperação do fôlego. E agora tem o clima — se essas chuvas realmente furarem de novo nos EUA, Chicago tem fôlego para subir mais. O mercado mostra que tem suporte forte nos US$ 12,00, e isso é boa notícia para o produtor", avaliou Vlamir Brandalizze, consultor da Brandalizze Consulting.
O principal gatilho que sustentou a soja nesta terça foi o relatório semanal do USDA, divulgado na segunda-feira à tarde: o índice de lavouras em condições boas ou excelentes nos Estados Unidos recuou de 66% para 63% em apenas uma semana — uma queda de 4 pontos percentuais que chamou a atenção dos operadores do mercado global.
"A queda de 4 pp nas condições boas/excelentes é a maior para o mês de julho desde 2012 e a mais intensa para qualquer semana desde junho de 2023", destacou o Grupo Labhoro em seu relatório diário. Temperaturas superiores a 31°C no oeste do Corn Belt e acima de 37°C no sul dos EUA ajudam a explicar a deterioração. Os modelos climáticos apontam alívio temporário entre sexta e domingo, com chuvas em Iowa, Wisconsin e Illinois, mas indicam retorno de calor intenso no início de agosto.
Enquanto Chicago oscila, os portos brasileiros têm apresentado resistência. Levantamento da Brandalizze Consulting aponta cotações entre R$ 150,00 e R$ 158,00 por saca para a soja disponível em Rio Grande (RS), a depender dos prazos de entrega e pagamento. Para a safra 2026/27, as referências variavam de R$ 139,00 a R$ 145,00 — faixas ainda sustentadas pelo câmbio e pelos prêmios de exportação, embora estes últimos estejam enfraquecidos e negativos em algumas praças.
Para Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de soja do país, o comportamento dos preços nos próximos dias é acompanhado de perto por agricultores que ainda definem estratégias de comercialização. O estado responde por volumes relevantes de exportação do grão, e qualquer deterioração climática mais intensa nos EUA tende a ampliar a janela de competitividade do produto brasileiro no mercado externo. A combinação de dólar elevado, prêmios razoáveis e demanda chinesa ativa mantém o setor em estado de atenção — nem eufórico, nem pessimista.
No plano geopolítico, o mercado monitorou de perto as negociações em torno do Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do transporte mundial de petróleo antes do conflito entre Irã e outros atores regionais. Uma proposta de gestão conjunta apresentada por Omã ao Irã ainda aguarda resposta oficial de Teerã, mas foi suficiente para aliviar os futuros do petróleo e, indiretamente, conter parte do apetite comprador no complexo soja.
Fontes: BRANDALIZZE CONSULTING, GRUPO LABHORO, USDA