As cotações futuras do milho encerraram a sessão de terça-feira (28) em alta expressiva tanto na Bolsa de Chicago (CBOT) quanto na B3, com valorizações em torno de 2% no mercado brasileiro e o contrato com vencimento em março de 2027 chegando a R$ 79,41 por saca — a poucos centavos da barreira simbólica dos R$ 80,00. O movimento refletiu uma combinação de fatores climáticos adversos nos Estados Unidos e novas vendas para exportação anunciadas pelo Departamento de Agricultura americano (USDA).
O cenário que sustenta essa alta vai além de um único pregão. As chuvas abaixo da média histórica em regiões produtoras norte-americanas têm deteriorado progressivamente as condições das lavouras de milho no país, enquanto a demanda global segue aquecida. Esses dois vetores têm pressionado as cotações da commodity há semanas, e o mercado brasileiro acompanha o movimento com atenção redobrada — especialmente porque a segunda safra nacional, que define o abastecimento interno até o fim do ano, apresenta desempenho heterogêneo entre os estados.
Na CBOT, os contratos futuros do milho registraram ganhos desde a abertura do pregão. O vencimento setembro/2026 fechou a US$ 4,58, com alta de 1,49%; o dezembro/2026 foi negociado a US$ 4,80, subindo 1,37%; o março/2027 chegou a US$ 4,95, com elevação de 1,28%; e o maio/2027 encerrou a US$ 5,04, com avanço de 1,15% em relação ao fechamento da segunda-feira.
Segundo análise da consultoria Agrinvest, o gatilho foi duplo: "A combinação da piora nas condições das lavouras e novas vendas para exportação deu impulso às cotações do milho. O USDA divulgou venda de 197 mil toneladas para destinos desconhecidos e o clima segue sendo um ponto importante. Mesmo que o mercado tenha tirado parte do ímpeto do rally climático, as atenções seguem voltadas para as chuvas abaixo do normal nos EUA para este período do ano", avaliaram os analistas. A incerteza sobre o volume da safra americana é o principal combustível do momento para as cotações globais.
No mercado brasileiro, a B3 refletiu o otimismo de Chicago com intensidade equivalente. O contrato setembro/2026 fechou a R$ 70,41 (+1,82%), o janeiro/2027 a R$ 77,76 (+1,97%), o março/2027 a R$ 79,41 (+2,08%) e o maio/2027 a R$ 77,80 (+1,55%). No mercado físico, valorizações foram registradas em praças como Ubiratã (PR), Marechal Cândido Rondon (PR), Jataí (GO), Rio Verde (GO), Cândido Mota (SP) — e também em Eldorado (MS), confirmando que o movimento chegou às bordas do Mato Grosso do Sul.
A colheita da segunda safra nacional avança, mas com desempenho desigual. Enquanto Mato Grosso registra boas produtividades — e justamente por isso os produtores do estado enfrentam pressão de baixa nas ofertas locais, com o milho spot na BR-163 sendo ofertado a cerca de R$ 50,00 a saca frente a indicações de compra em torno de R$ 46,50/sc para agosto —, estados como Tocantins, Maranhão e Piauí registram quedas de produtividade que podem pressionar o abastecimento regional.
Para o produtor sul-mato-grossense, o cenário é de cautela estratégica. A alta nas cotações futuras da B3, especialmente no contrato março/2027 próximo dos R$ 80,00, abre uma janela de travamento de preços interessante para quem ainda não fixou parcela da produção da safra que virá. Ao mesmo tempo, a pressão vendedora vinda de Mato Grosso — que concentra o maior volume da segunda safra nacional — tende a segurar o mercado físico local em patamares mais baixos no curto prazo.
A Agrinvest observa que, enquanto a soja perde liquidez nesta semana, o milho ganha protagonismo nas negociações. "Enquanto não há muito movimento para a soja, em função da perda de liquidez dessa semana, o milho vai ganhando mais atenção", destacou a consultoria. O comportamento das chuvas nos EUA nas próximas semanas deve continuar ditando o ritmo do mercado internacional — e, por consequência, o piso das cotações no Brasil.
Para Mato Grosso do Sul, estado com produção significativa de milho segunda safra e forte demanda interna do setor de proteína animal, acompanhar a janela de preços futuros na B3 torna-se cada vez mais essencial para a gestão de risco nas propriedades rurais.
Fontes: AGRINVEST, B3, CBOT, USDA