Soja e carne do Cerrado precisam de rastreabilidade integrada, diz WRI

Pesquisa lançada nesta terça aponta lacunas nos sistemas de monitoramento ambiental das cadeias produtivas brasileiras, com impacto direto nas exportações.

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Soja e carne do Cerrado precisam de rastreabilidade integrada, diz WRI
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O Brasil monitora suas cadeias de soja e carne bovina com ferramentas sofisticadas, mas esses sistemas operam de forma fragmentada — e essa desconexão pode custar caro no mercado internacional. É o que revela o estudo Rastreando a Responsabilidade, divulgado nesta terça-feira (28) pela organização ambiental WRI Brasil, que mapeou 21 iniciativas de monitoramento e rastreabilidade socioambiental nos biomas Amazônia e Cerrado, sendo dez voltadas à soja e onze à pecuária bovina.

Para Mato Grosso do Sul, estado que figura entre os maiores produtores nacionais de soja e carne, o diagnóstico é diretamente relevante. O Cerrado cobre boa parte do território sul-mato-grossense, e qualquer exigência imposta pelo mercado externo sobre rastreabilidade ambiental recai, inevitavelmente, sobre os produtores e frigoríficos locais. A pergunta que o estudo tenta responder é simples: o Brasil está preparado para provar, com dados integrados e verificáveis, que sua produção não alimentou o desmatamento?

O que falta nos sistemas de controle atuais

A pesquisa identificou que, embora existam instrumentos robustos no país, eles raramente conversam entre si. Bases de dados governamentais, sistemas privados de certificação e plataformas de monitoramento por satélite funcionam em paralelo, sem harmonização de critérios. O resultado é que um mesmo produtor pode estar em conformidade para uma iniciativa e irregular em outra — criando brechas que comprometem a credibilidade do conjunto.

Entre as dez recomendações formuladas pelos pesquisadores, destacam-se a adoção da propriedade rural como unidade padrão de monitoramento, a exigência de auditorias independentes com publicação de relatórios de transparência, e a expansão do rastreamento para incluir fornecedores indiretos — o chamado elo cego da cadeia, frequentemente ignorado pelos sistemas atuais. O estudo também pede que seja verificado o cumprimento do Código Florestal Brasileiro e a ausência de trabalho forçado nas propriedades monitoradas.

China como termômetro das exigências globais

Um dado revela a dimensão do que está em jogo: a China importou do Brasil US$ 44,6 bilhões em soja e carne bovina apenas em 2024. O país asiático é apontado pelo estudo como um parceiro estratégico que pode se beneficiar — e eventualmente exigir — protocolos padronizados de rastreabilidade para reduzir seu próprio risco socioambiental nas compras.

"Hoje, a gente já tem casos de instituições financeiras, por exemplo, no Brasil, que fazem a checagem com bases de dados oficiais e não oficiais. E podemos pensar em como a gente traz para instituições globais — bancos de desenvolvimento, investidores — também incorporarem isso nas suas análises de risco", disse Mariana Oliveira, diretora do Programa de Florestas e Uso da Terra no WRI Brasil. A afirmação sinaliza que a pressão não virá apenas dos governos compradores, mas do próprio sistema financeiro global.

Com bases de dados integradas e critérios técnicos harmonizados entre os diferentes órgãos do Estado, países importadores teriam acesso mais claro e confiável a informações sobre a origem da produção — reduzindo o risco de autuações como as que ameaçam exportadores brasileiros diante de regulações como o Regulamento Europeu sobre Desmatamento (EUDR).

O que isso significa para produtores de MS

Mato Grosso do Sul produz cerca de 3,5 milhões de toneladas de soja por safra e possui um dos maiores rebanhos bovinos do país, com forte presença de frigoríficos exportadores. A adoção das recomendações do WRI Brasil teria efeito prático imediato para o setor: produtores em conformidade ambiental ganhariam um diferencial competitivo rastreável, enquanto os que ainda regularizam áreas teriam acesso a mecanismos de reintegração à cadeia após comprovação de ajuste.

"Um modelo de desenvolvimento que promova de fato benefícios socioeconômicos, oportunidades, empregos, renda para produtores e produtoras rurais, qualidade de vida no campo. Tudo isso passa por um olhar de inovação, mecanização e, nessa cooperação com a China, isso tem muito potencial", concluiu Mariana Oliveira. Para o agronegócio sul-mato-grossense, integrar-se a esse sistema não é mais questão de escolha — é condição de acesso aos mercados que sustentam a economia do estado.

Fontes: WRI BRASIL, AGÊNCIA BRASIL


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