O governo federal emitiu um alerta formal sobre o avanço do El Niño no segundo semestre de 2025: as projeções apresentadas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima durante reunião técnica de monitoramento climático indicam que o fenômeno deve atingir intensidade forte ou muito forte entre agosto e dezembro, elevando o risco de incêndios florestais em regiões do Norte e do Centro-Oeste — zona que inclui o Cerrado de Mato Grosso do Sul.
A avaliação reuniu técnicos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Cemaden e do laboratório de satélites ambientais da UFRJ. O consenso entre as instituições é de que as temperaturas permanecerão acima da média em grande parte do país e as chuvas devem cair abaixo do esperado exatamente no período em que a vegetação seca fica mais vulnerável ao fogo.
Na prática, o El Niño redistribui a umidade atmosférica: enquanto a Região Sul costuma receber precipitações acima da média durante o fenômeno, o Centro-Oeste e o Norte sofrem o efeito inverso. Para Mato Grosso do Sul, isso significa um outono e inverno ainda mais secos do que o habitual — combinação perigosa em um estado que divide biomas de Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica, todos sensíveis à estiagem prolongada.
Agosto, setembro e outubro são historicamente os meses de maior incidência de queimadas em MS. Com o El Niño operando em intensidade acima do normal, a expectativa dos especialistas é que esse pico sazonal seja agravado, aumentando tanto o número de focos quanto a dificuldade de controle dos incêndios, especialmente nas bordas do Pantanal e nas áreas de Cerrado no centro e norte do estado.
As análises técnicas apontam Amazonas, Pará, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso como os estados com maior probabilidade de concentração de focos de incêndio nos próximos meses, cobrindo principalmente a Amazônia e o Brasil Central. Mato Grosso do Sul, vizinho direto do Mato Grosso e com extensas áreas de Cerrado e vegetação nativa, integra essa faixa de risco elevado mesmo sem estar no topo da lista.
O ciclo de reuniões técnicas, iniciado em janeiro pelo ministério, tem como propósito exatamente antecipar esses cenários para orientar o planejamento de prevenção e combate. Participam do fórum representantes da Casa Civil, do Ibama, do ICMBio, de órgãos estaduais e de organizações da sociedade civil, além do Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo. A ideia é que os dados produzidos nessas reuniões subsidiem decisões sobre reforço de brigadas, equipamentos e restrições de uso do fogo.
Para o leitor de MS, o alerta federal tem implicações concretas. Produtores rurais que utilizam o fogo como ferramenta de manejo devem ficar atentos às normas do Imasul e às restrições que costumam ser publicadas anualmente antes do período crítico. Moradores de municípios próximos ao Pantanal e às áreas de Cerrado — como Corumbá, Aquidauana, Miranda, Coxim e Costa Rica — podem ser afetados pela fumaça e pela deterioração da qualidade do ar ao longo do inverno.
O histórico recente reforça a preocupação: em anos de El Niño mais intenso, o Pantanal registrou recordes de área queimada, como ocorreu em 2020. A antecipação do monitoramento federal é um passo importante, mas especialistas reforçam que a prevenção efetiva depende também de ações coordenadas entre estados e municípios — e da vigilância de toda a sociedade durante os meses mais críticos do ano.
Fontes: MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA, INPE, INMET, CEMADEN