Fim de acordo antidesmatamento pode custar 1,4 mi de hectares da Amazônia

Estudo publicado na revista Science aponta que abandono da Moratória da Soja elevaria emissões de carbono equivalentes às do Canadá inteiro em um ano

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Fim de acordo antidesmatamento pode custar 1,4 mi de hectares da Amazônia
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Um artigo científico publicado na revista Science acende um alerta grave sobre o futuro da Amazônia: se a Moratória da Soja deixar de vigorar, o Brasil pode perder 1,4 milhão de hectares adicionais de floresta nos próximos dez anos — um ritmo 14% acima das taxas históricas de desmatamento. O estudo, que reúne pesquisadores do WWF Brasil, da Greenpeace Brasil, da Land Conservation Association e das universidades de Wisconsin e Illinois (EUA), chega num momento crítico: o Supremo Tribunal Federal começa a julgar quatro ações que questionam a legalidade do acordo a partir do dia 12 de agosto.

A Moratória da Soja existe desde 2008 como um pacto voluntário que veda a comercialização de grãos cultivados em áreas recém-desmatadas da Amazônia Legal. Por quase duas décadas funcionou como um freio ao avanço do desmatamento motivado pela expansão do plantio. Mas o cenário mudou em janeiro de 2026, quando a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) — que agrupa gigantes do agronegócio como Cargill, Bunge e ADM — anunciou sua saída formal do acordo. A tentativa de mediação conduzida pelo próprio STF chegou a ser anunciada em março, mas as negociações fracassaram e foram encerradas em junho, devolvendo os processos aos ministros relatores.

O preço ambiental que os dados revelam

A pesquisa quantifica o que a perda do mecanismo pode significar para o clima global. Os 1,4 milhão de hectares que correm risco de desmatamento adicional gerariam aproximadamente 745 milhões de toneladas de CO₂ equivalente — volume comparável às emissões anuais totais do Canadá. Além disso, o estudo estima que até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas poderiam ser afetados indiretamente, sobretudo em zonas com vocação para expansão de infraestrutura e vulneráveis à especulação fundiária.

Os números contrastam com o histórico positivo do próprio acordo. Nos seus primeiros dez anos de vigência, a Moratória reduziu em 35% o desmatamento nas áreas de expansão da soja, evitando a supressão de 1,8 milhão de hectares de floresta. "A Moratória da Soja mostrou que é possível ampliar a produção agrícola mantendo critérios de conservação. O desafio agora é garantir que instrumentos capazes de reduzir o desmatamento continuem fazendo parte da estratégia brasileira de desenvolvimento", afirma Tiago Reis, analista do WWF-Brasil e um dos autores do estudo.

Argumento econômico contra o acordo não se sustenta nos dados

Um dos pontos mais debatidos em torno da Moratória é a acusação de que ela teria tolhido o crescimento econômico dos produtores rurais da Amazônia. O artigo vai a fundo nessa questão e conclui o contrário: apenas 739 mil hectares de áreas legalmente aptas ao plantio de soja foram desmatados após 2008, e a maior parte dessas terras não pertencia a produtores de soja. Isso indica que o impacto econômico direto sobre os agricultores foi bastante restrito.

A pesquisa vai além e identifica cerca de 1,7 milhão de hectares de áreas já abertas e tecnicamente aptas para o cultivo da oleaginosa dentro da Amazônia — o que, na prática, significaria que é possível aumentar a produção sem derrubar um metro quadrado sequer de floresta nativa. Os autores também descartaram a tese de que o mecanismo funcionaria como um cartel: ao comparar preços pagos a produtores em municípios dentro e fora do alcance da Moratória, não encontraram distorções de remuneração. "Ao adotar compromissos de controle do desmatamento e de rastreabilidade, o setor contribui para proteger a floresta, preservar serviços ecossistêmicos essenciais para a própria agricultura e responder às crescentes demandas dos mercados nacionais e internacionais", destacou Tiago Reis.

STF decide em agosto — e Mato Grosso do Sul está no centro do debate

O julgamento marcado para 12 de agosto no plenário do STF promete ser um dos mais relevantes para o agronegócio e para o meio ambiente em 2026. Entre as quatro ações pautadas, uma delas avalia a liminar do ministro Flávio Dino, que suspendeu processos administrativos e judiciais que tentavam derrubar a Moratória. Outra cuida de Ações Diretas de Inconstitucionalidade que miram diretamente uma lei do Mato Grosso — estado que retira incentivos fiscais e doações de terrenos públicos de empresas signatárias do acordo.

Para Mato Grosso do Sul, maior produtor de soja do Centro-Oeste ao lado do vizinho mato-grossense, o desfecho do julgamento importa tanto do ponto de vista produtivo quanto reputacional. O estado vem construindo nos últimos anos uma imagem de agronegócio sustentável, com rastreabilidade e certificações ambientais que facilitam o acesso a mercados europeus e asiáticos — exatamente o tipo de exigência que o pesquisador Tiago Reis menciona quando fala em demandas crescentes dos compradores internacionais. "Produzir mais e conservar a Amazônia são objetivos que podem caminhar juntos, desde que haja transparência, responsabilidade compartilhada e mecanismos capazes de orientar a expansão produtiva para áreas já abertas", conclui o analista.

O resultado do STF em agosto pode, portanto, redesenhar as regras do jogo para toda a cadeia produtiva da soja no Brasil — e os efeitos serão sentidos dos campos sul-mato-grossenses às mesas de negociação em Bruxelas e Tóquio.

Fontes: AGÊNCIA BRASIL, WWF-BRASIL, REVISTA SCIENCE


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