A arrecadação dos royalties da mineração em Mato Grosso do Sul registrou queda de 23,3% no primeiro quadrimestre de 2026, acendendo um alerta sobre a dependência econômica de municípios mineradores, especialmente Corumbá, principal polo do setor no estado.
Entre janeiro e abril, o volume arrecadado pela Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) caiu de R$ 15,3 milhões em 2025 para R$ 11,7 milhões neste ano, segundo dados recentes.
A retração reflete um problema maior: a forte exposição da receita pública às oscilações do mercado global de commodities.
Dependência do minério de ferro
O desempenho da arrecadação está diretamente ligado ao minério de ferro, que sozinho responde por cerca de 71% da receita mineral do estado.
Mesmo mantendo a liderança, o produto registrou queda de 22,6% no período, puxando o resultado geral para baixo.
A explicação passa pelo cenário internacional. O mercado de minério de ferro entrou em 2026 sob pressão, com preços mais baixos, aumento da oferta global e demanda enfraquecida.
Como o valor da CFEM é calculado com base no faturamento das mineradoras, qualquer redução no preço internacional impacta diretamente a arrecadação pública.
A tendência não é nova.
Em 2025, Mato Grosso do Sul já havia registrado queda de 28,4% na arrecadação de royalties em relação a 2024, também influenciada pela redução do preço médio do minério. O dado de 2026, portanto, reforça um movimento de retração que vem se consolidando.
Para onde vai o dinheiro
A CFEM é distribuída entre diferentes níveis de governo, mas a maior parte fica próxima de onde a mineração acontece.
Cerca de 60% dos recursos vão para os municípios produtores, 15% para os estados e outros 15% para municípios impactados pela atividade. O restante é dividido entre órgãos federais, como a Agência Nacional de Mineração.
Na prática, isso significa que cidades diretamente ligadas à mineração sentem de forma mais intensa tanto os ganhos quanto as perdas.
Municípios mais afetados
Em Mato Grosso do Sul, a arrecadação está concentrada em poucos municípios. Os principais beneficiados são:
Corumbá
Ladário
Bela Vista
Bodoquena
Inocência
Corumbá lidera com ampla vantagem, sendo responsável pela maior parcela da arrecadação estadual.
A cidade concentra grandes operações de extração de ferro e manganês, além de possuir estrutura logística para escoamento da produção, como a hidrovia do Rio Paraguai.
Como Corumbá usa os royalties
Os recursos da CFEM são fundamentais para o funcionamento da cidade.
Embora não tenham destinação fixa, eles são utilizados principalmente para compensar os impactos da atividade mineral e financiar serviços públicos.
Na prática, o dinheiro é aplicado em áreas como infraestrutura urbana, com pavimentação e manutenção de vias afetadas pelo tráfego pesado, além de investimentos em saúde, educação e funcionamento da máquina pública.
Também há aplicação em ações ambientais, já que a mineração gera impactos diretos no território, como alteração do solo, poeira e pressão sobre recursos naturais.
Pressão nas contas públicas
A queda na arrecadação tem impacto direto no orçamento municipal.
Como Corumbá depende fortemente da mineração, qualquer oscilação na receita se traduz rapidamente em restrições financeiras.
Isso revela um problema estrutural: a forte dependência de um setor cíclico e atrelado ao mercado internacional. Quando o preço do minério sobe, a arrecadação cresce. Quando cai, o efeito é imediato nas contas públicas.
Debate sobre transparência
Além dos fatores econômicos, também existe um debate sobre a forma de cálculo e fiscalização da CFEM.
Lideranças políticas já questionaram situações em que a produção mineral cresce, mas os repasses não acompanham, levantando dúvidas sobre a base de cálculo e o nível de controle sobre as mineradoras.
Esse cenário amplia a discussão sobre governança do setor e a necessidade de maior transparência na arrecadação.
Um sinal de alerta
A queda de 23,3% nos royalties da mineração em 2026 vai além de um dado pontual. Ela evidencia a vulnerabilidade de economias locais que dependem fortemente da exploração mineral.
Enquanto a mineração segue sendo um pilar importante para Mato Grosso do Sul — e especialmente para Corumbá —, o momento reforça a necessidade de diversificação econômica e planejamento de longo prazo.
Sem isso, os municípios continuam expostos a um ciclo de alta e queda que depende menos da gestão local e mais das oscilações do mercado global.