A COFCO International, braço internacional do grupo estatal chinês COFCO Corporation, está ampliando sua presença no agronegócio brasileiro com investimentos em processamento, armazenagem e infraestrutura de exportação. A estratégia aumenta a participação da companhia nas diferentes etapas da cadeia, desde a compra dos produtos agrícolas até o processamento, transporte e embarque para o mercado internacional.
O movimento ocorre em um momento de forte expansão da produção brasileira. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) projetou que o Brasil poderá exportar 113,6 milhões de toneladas de soja em 2026, volume que representaria um novo recorde. A entidade estimou a safra 2025/26 em 177,85 milhões de toneladas.
A China ocupa posição central nesse mercado. Em 2025, o país recebeu cerca de 85,43 milhões de toneladas de soja brasileira, correspondentes a aproximadamente 79% do total exportado pelo Brasil naquele ano, segundo levantamento da Hedgepoint.
Investimento bilionário em Rondonópolis
Um dos principais investimentos recentes da COFCO está em Rondonópolis, Mato Grosso, importante polo agroindustrial e logístico do Centro-Oeste. A companhia anunciou aporte superior a R$ 2 bilhões para ampliar sua estrutura de processamento de soja no município.
O projeto prevê elevar a capacidade de esmagamento de aproximadamente 4,5 mil para 10 mil toneladas de soja por dia até 2028. A estrutura ampliada permitirá aumentar a fabricação de produtos derivados da oleaginosa e fortalecer a integração da operação da companhia com a logística regional.
Rondonópolis tem posição estratégica justamente porque funciona como um grande ponto de encontro entre o transporte rodoviário e ferroviário. Grande volume dos grãos produzidos em Mato Grosso chega à região por caminhões e, no terminal ferroviário, pode ser transferido para composições com destino ao litoral paulista.
BR-163 coloca Mato Grosso do Sul no corredor do agro
É nesse mapa logístico que Mato Grosso do Sul ganha relevância. A BR-163, que atravessa o estado de norte a sul, integra um dos principais corredores rodoviários utilizados pela produção agropecuária do Centro-Oeste.
Em Mato Grosso, grande parte do fluxo rodoviário de grãos produzido nas áreas mais ao norte segue pela BR-163 em direção ao terminal de Rondonópolis. A rodovia também estabelece a ligação terrestre entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, dando ao eixo papel estratégico para a movimentação regional de cargas.
Isso não significa, entretanto, que toda a soja processada ou comercializada pela COFCO em Rondonópolis atravesse Mato Grosso do Sul pela BR-163 rumo a Santos. A logística é multimodal e diferentes rotas são utilizadas de acordo com origem, destino e operação.
Um dos caminhos mais importantes é justamente a ferrovia. Em 2024, aproximadamente 12 milhões de toneladas de soja e farelo foram embarcadas no terminal ferroviário de Rondonópolis com destino ao Porto de Santos. Desse volume, aproximadamente 7 milhões de toneladas correspondiam à soja em grão.
O fluxo ferroviário entre Rondonópolis e Santos mostra como rodovias e ferrovias funcionam de forma complementar. Caminhões transportam a produção entre propriedades, armazéns e terminais, enquanto grandes volumes podem seguir de trem para o porto.
COFCO amplia estrutura no Porto de Santos
No outro extremo da cadeia logística, a companhia realiza outro investimento estratégico. A COFCO está expandindo sua capacidade no Porto de Santos, em São Paulo, por meio do terminal STS-11, destinado à movimentação de granéis sólidos vegetais.
Com o terminal em plena operação, a capacidade portuária própria da companhia no Brasil deverá passar de aproximadamente 3 milhões para mais de 14 milhões de toneladas por ano. A instalação foi planejada para movimentar commodities como soja, milho, açúcar e trigo.
A estrutura terá aproximadamente 98 mil metros quadrados, capacidade para armazenar mais de 490 mil toneladas e dois berços exclusivos para atracação de navios. A estimativa divulgada pela companhia prevê capacidade para carregar mais de 240 navios anualmente.
Os investimentos anunciados para o terminal chegaram a cerca de R$ 1,7 bilhão, além de aportes em ativos ferroviários estimados em R$ 1,2 bilhão.
China avança da compra para a infraestrutura
A expansão mostra uma mudança importante na relação entre o agronegócio brasileiro e a China. A presença chinesa não fica limitada à condição de grande compradora dos produtos brasileiros. Por meio da COFCO, o capital chinês está presente também na originação, processamento, armazenagem e infraestrutura logística necessária para movimentar commodities.
A própria COFCO informa que 65% de seus ativos ligados a grãos e oleaginosas estão localizados na América do Sul. A companhia atua globalmente na compra, armazenamento, comercialização, processamento e distribuição de commodities agrícolas, além de manter operações de transporte terrestre e marítimo.
O Brasil tem papel central nesse processo devido à escala da produção e à importância da China como destino. O complexo soja respondeu por cerca de 31% das receitas das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, movimentando US$ 52,9 bilhões, segundo dados consolidados a partir de informações oficiais de comércio exterior.
Expansão aumenta competição entre gigantes do setor
Apesar do forte crescimento, ainda não há base suficiente nos dados consultados para afirmar que a COFCO já se tornou isoladamente a maior exportadora de commodities agrícolas do Brasil, ultrapassando definitivamente concorrentes tradicionais como Cargill, Bunge e Louis Dreyfus.
O que os dados comprovam é uma expansão significativa da capacidade da companhia chinesa e uma redução da dependência de estruturas logísticas de terceiros. Antes da ampliação em Santos, essa dependência gerava custos entre 10% e 15% superiores aos de concorrentes, conforme informação atribuída a executivo da COFCO em publicação especializada.
Com novos investimentos em Mato Grosso e no Porto de Santos, a companhia passa a controlar uma parcela maior das etapas necessárias para levar as commodities das regiões produtoras até os compradores internacionais.
Para Mato Grosso do Sul, o avanço dessas operações reforça a importância de acompanhar os investimentos logísticos do Centro-Oeste. A BR-163 é um dos grandes eixos de transporte da produção regional e conecta MS à dinâmica econômica dos estados vizinhos, enquanto a combinação entre rodovias, terminais ferroviários e portos dá suporte ao crescimento das exportações brasileiras.
Assim, a expansão da COFCO não representa apenas o crescimento de uma trading estrangeira. Ela mostra como a disputa global pelo abastecimento de alimentos está cada vez mais ligada ao controle e à eficiência das rotas que conectam o campo brasileiro aos portos, cenário no qual os corredores logísticos do Centro-Oeste, incluindo os que passam por Mato Grosso do Sul, ganham importância econômica estratégica.
Rota Bioceânica pode abrir novo caminho para o mercado asiático
A expansão da presença chinesa no agronegócio brasileiro também ocorre às vésperas de uma mudança importante no mapa logístico do Centro-Oeste. A Rota Bioceânica deverá criar uma alternativa de escoamento pelo Oceano Pacífico, conectando o Brasil ao Paraguai, Argentina e Chile.
Em Mato Grosso do Sul, o corredor passa por Porto Murtinho, onde a Ponte Internacional Bioceânica estabelece a ligação com Carmelo Peralta, no Paraguai. A partir daí, a rota atravessa o Chaco paraguaio e o norte argentino até alcançar portos chilenos como Antofagasta, Iquique e Mejillones.