A retirada de 8 milhões de toneladas de ureia do mercado internacional pode derrubar a produção mundial de trigo em até 100 milhões de toneladas, segundo projeção da Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes (IFA) apresentada em São Paulo nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2026. A entidade reuniu em sua análise industrial, importância da energia para reparar o custo dos fertilizantes nitrogenados e os efeitos sobre o plantio em todo o mundo.
O alerta chega num momento em que o produtor de Mato Grosso do Sul já convive com margem apertada: o estado é o maior exportador de soja do país em eficiência produtiva por área, mas enfrenta custo logístico elevado até os portos, conforme mostrou o MSConecta em reportagem recente sobre a competitividade da soja sul-mato-grossense. Um encarecimento global de fertilizantes nitrogenados tende a pressionar ainda mais esse custo de produção antes mesmo de o grão sair da lavoura.
A CEO e diretora-geral da IFA, Alzbeta Klein, afirmou que cerca de metade de todo alimento consumido no planeta depende, direta ou indiretamente, do processo Haber-Bosch, tecnologia que transforma gás natural em fertilizante nitrogenado. Segundo ela, um único fabricante mundial responde por volume de insumo suficiente para sustentar a alimentação de quase 5% da população do planeta, o que torna o sistema vulnerável a qualquer interrupção pontual de fornecimento.
"Essa dependência estrutural faz com que instabilidades no fornecimento de energia tenham efeito direto sobre os custos de fabricação, a formação de preços e o comércio de nutrição vegetal", destacou a entidade na análise. Na prática, uma crise energética em qualquer parte do mundo pode se transformar, meses depois, em decisão de plantio mais conservadora dentro da porteira de uma fazenda.
A IFA também citou entraves no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de insumos e combustíveis, além de travas regulatórias em processos de certificação sanitária de cargas, que atrasam embarques e prejudicam a logística humanitária de grãos em regiões mais dependentes de importação. Para a entidade, fertilizantes, energia e navegação deixaram de ser temas isolados e precisam entrar juntos no planejamento de abastecimento dos países.
Klein defendeu que metas ambientais do setor agrícola sejam testadas contra cenários de estresse, de forma a resistir a oscilações bruscas de preço e a falhas logísticas sem travar a produção. Entre as alternativas apontadas estão a amônia de baixo carbono, fertilizantes de eficiência aumentada e insumos biológicos, acompanhados de linhas de financiamento voltadas à resiliência do produtor e de mecanismos de medição da pegada de carbono da cadeia.