As apostas on-line podem ter provocado um impacto de R$ 520,26 milhões a R$ 4,4 bilhões na economia de Mato Grosso do Sul, segundo estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cálculo considera recursos das famílias direcionados às plataformas que poderiam ter sido utilizados na compra de bens e serviços, movimentando supermercados, comércio, restaurantes, lazer e outros segmentos da economia. O valor de R$ 4,4 bilhões representa o cenário máximo calculado pelo levantamento e não deve ser interpretado como uma perda direta já contabilizada.
A dimensão do problema acompanha um fenômeno nacional. A CNC estima impacto potencial das apostas entre R$ 39,2 bilhões e R$ 364 bilhões no Brasil. A metodologia leva em consideração o efeito multiplicador dos recursos que deixam de circular por outros setores produtivos quando são direcionados às apostas. Outro levantamento divulgado a partir do mesmo estudo estimou que o comércio de bens, serviços e turismo deixou de obter R$ 103 bilhões em faturamento anual potencial, enquanto cerca de 1,8 milhão de brasileiros chegaram à inadimplência após comprometer renda com apostas.
Em Mato Grosso do Sul, representantes do comércio avaliam que o avanço das apostas afetou a renda disponível das famílias e reduziu recursos que poderiam permanecer na economia local. A preocupação alcança desde pequenos estabelecimentos até supermercados e prestadores de serviços, já que a diminuição do dinheiro destinado ao consumo pode afetar faturamento, investimentos e empregos. O impacto potencial sobre o PIB estadual também foi estimado entre R$ 264,12 milhões e R$ 2,7 bilhões, enquanto a perda estimada de arrecadação tributária ficou entre R$ 27,66 milhões e R$ 173,04 milhões.
O cenário ganha um novo capítulo após o governo federal editar, em 25 de setembro, a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe no território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, tanto em meio físico como virtual. A medida alcança apostas esportivas e jogos on-line e também se aplica às autorizações concedidas por estados e pelo Distrito Federal. Desde a publicação da MP, novos aportes nas plataformas foram proibidos, os apostadores têm até 5 de outubro para retirar voluntariamente os saldos e, a partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos autorizados deverão deixar de oferecer apostas.
O fim das bets, entretanto, não significa que R$ 4,4 bilhões serão automaticamente injetados na economia sul-mato-grossense. O número corresponde ao teto do impacto estimado pela CNC e depende do comportamento das famílias. A expectativa do setor comercial é de que parte do dinheiro anteriormente destinado às apostas possa voltar gradualmente para alimentação, compras, serviços, lazer ou quitação de dívidas. Caso isso ocorra, Mato Grosso do Sul poderá sentir efeitos positivos no consumo e na circulação de recursos, reduzindo parte da pressão que as apostas exerceram sobre o orçamento familiar e sobre diferentes atividades econômicas.