O Paraguai passou a incluir o reflorestamento como parte da estratégia de combate ao narcotráfico na fronteira com Mato Grosso do Sul. A Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) deu início nesta quarta-feira (2) a uma nova fase da Operação Restaurar, replantando espécies nativas em reservas ambientais dos departamentos de Caaguazú e Canindeyú — região que faz divisa com municípios sul-mato-grossenses como Paranhos e Coronel Sapucaia.
A iniciativa vem logo após a conclusão da 57ª edição da Operação Nova Aliança, ação conjunta da Senad e da Polícia Federal brasileira que, ao longo de 12 dias, eliminou 222 hectares de plantações de maconha e destruiu 44 acampamentos erguidos por traficantes dentro dessas reservas. O vínculo entre destruição ambiental e tráfico de drogas raramente aparece nas manchetes, mas é central para entender a dinâmica criminal que pressiona a fronteira de MS.
A lógica dos grupos criminosos é calculada: ao instalar cultivos em áreas de difícil acesso no interior de reservas naturais protegidas, eles dificultam a fiscalização aérea e terrestre. As árvores são derrubadas para abrir clareiras voltadas exclusivamente ao plantio ilegal de maconha. O resultado é duplo — prejuízo ambiental e obstáculo para as forças de segurança. A Senad tem operado com apoio de forças especiais justamente para alcançar esses pontos remotos.
O trabalho de restauração da Operação Restaurar entra em cena depois que as estruturas criminosas são desmontadas. Sementes e mudas de espécies nativas são plantadas nas mesmas clareiras onde antes crescia maconha, com o objetivo de recuperar a cobertura vegetal e dificultar o retorno dos traficantes ao local.
Os dados mais recentes mostram que a pressão constante tem surtido efeito. Um relatório da Fundação Moisés Bertoni, administradora da Reserva Natural da Mata de Mbaracayú — localizada a apenas 20 quilômetros de Paranhos, no lado paraguaio —, revela que as novas áreas destinadas a cultivos ilícitos caíram de 662 hectares em 2023 para 450 hectares em 2025. No primeiro semestre de 2026, foram identificados apenas 107 hectares, o que representa uma redução de 74% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Criada em 1991, a Reserva Mbaracayú é um dos ecossistemas de Mata Atlântica interior mais relevantes do Paraguai. A fundação aponta que o monitoramento permanente e a maior presença institucional no território explicam essa tendência de queda — mas ressalta que a ameaça ainda não foi eliminada e que qualquer recuo nas ações pode reabrir espaço para o crime organizado.
A dimensão ambiental do narcotráfico tem impacto direto sobre comunidades sul-mato-grossenses. Municípios como Paranhos, Coronel Sapucaia e Sete Quedas vivem sob influência direta do que acontece no lado paraguaio da fronteira — tanto pelo fluxo de drogas quanto pela pressão sobre reservas que compartilham a mesma bacia hidrográfica. Quando o tráfico avança sobre a mata, a degradação não respeita a linha internacional.
A parceria entre a Polícia Federal e a Senad nas operações Nova Aliança — já na 57ª edição — é hoje o principal instrumento bilateral de contenção desse avanço. O sucesso do reflorestamento, contudo, depende de que as forças de segurança mantenham presença constante: sem vigilância, as clareiras recuperadas voltam a ser alvo. O Paraguai aposta que unir erradicação e restauração ambiental em uma mesma operação é a resposta mais eficaz para que a floresta não volte a ser tomada pelo crime.
Fontes: SENAD PARAGUAI, FUNDAÇÃO MOISÉS BERTONI