Com 600 militares em campo, barcos blindados navegando pelo rio Paraguai e postos de abordagem que variam de lugar propositalmente, o Exército Brasileiro vem executando em Mato Grosso do Sul uma das operações de segurança de fronteira mais intensas do país. Só em 2026, a Operação Jaguaretê-Oeste já retirou de circulação cerca de 12 toneladas de entorpecentes ao longo da faixa de fronteira Oeste — prejuízo estimado em R$ 66 milhões para o crime organizado.
A operação cobre toda a chamada faixa de fronteira, uma faixa de 150 quilômetros medida a leste da linha que delimita o território brasileiro na América do Sul. Em Mato Grosso do Sul, o epicentro das ações é Corumbá, cidade que divide com a Bolívia não apenas uma linha imaginária, mas o leito do rio Paraguai — principal rota de escoamento legal e ilegal de mercadorias entre o continente e o mar. O desafio, como explicam os comandantes da operação, é monumental: não há muro, cerca ou barreira física separando os países.
"Não há barreiras físicas, muros, grades que separam o Brasil da Bolívia. É só dar um passo que a tutela do indivíduo já não nos pertence mais, e não podemos fazer nada", explicou o General de Divisão Marcelo Zanon, do Comando Militar do Oeste (CMO). A declaração resume o principal gargalo enfrentado pelas forças militares: a imensidão do território e a ausência de fronteiras físicas exigem uma presença constante, em qualquer condição climática, de dia e de noite.
Somente em Corumbá, a 18ª Brigada de Infantaria de Pantanal — em atuação desde 1º de junho — já confiscou o equivalente a R$ 2 milhões em entorpecentes e produtos de descaminho, termo técnico para importações ilegais. O General de Brigada Rafael Novaes esclarece que a fiscalização não foca em um perfil específico: "Buscamos fiscalizar o máximo possível. Não buscamos alguma coisa em específico. Queremos ter a convicção de que todos os veículos que passam por aqui não estão levando nenhum tipo de substância proibida".
O rio Paraguai é, há séculos, a única saída de Bolívia e Paraguai para o oceano — o que lhes garante, por um acordo firmado em 1856, o direito de trânsito fluvial pelo território brasileiro. Esse corredor legítimo, porém, também abriu caminho para o tráfico de drogas, armas sem registro e produtos contrabandeados que abastecem facções criminosas em todo o Brasil, não apenas nas cidades de fronteira.
Para fiscalizar as embarcações que cruzam o rio, o Exército utiliza um Ferryboat blindado, capaz de operar em alta velocidade e comportar até 30 militares armados, além de dispositivos de combate antiaéreo. Botes menores entram em ação dependendo do grau de ameaça avaliado antes de cada interceptação. Paralelamente à Jaguaretê-Oeste, o CMO coordena ainda as operações Ágata-Carcará e Ágata-Pantanal, voltadas especificamente para o reforço do controle fronteiriço na região do Pantanal, com caráter interagências.
Em terra, a principal via de passagem entre o Brasil e a Bolívia é a BR-262, rodovia Ramon Gomes, que conecta Corumbá a Porto Quijarro. Todo veículo que circula entre as duas cidades deve passar pelo posto fiscal Lampião Aceso. Mas os militares fazem questão de não se limitar a esse ponto fixo: abordagens acontecem em locais e horários variados para impedir que traficantes mapeiem padrões de fiscalização.
"Somos o mais imprevisível possível em relação às posições de abordagem", enfatizou o General Rafael Novaes. A estratégia é apoiada por um ecossistema de parceiros: Marinha, Polícias Civil, Militar, Rodoviária e Federal, Receita Federal e Ministério da Agricultura e Pecuária integram as ações, e há troca de inteligência com agências internacionais para identificar alvos e montar estratégias de captura. O resultado, ainda que parcial, já aparece nos números: mais de uma dúzia de toneladas de drogas fora das ruas brasileiras desde o início do ano.
Para Mato Grosso do Sul, o impacto vai além da segurança pública. A entrada de produtos contrabandeados pela fronteira pressiona comerciantes locais, que competem com preços muito abaixo do mercado formal, enquanto o tráfico de drogas e armas alimenta a violência que atinge municípios ao longo de toda a faixa de fronteira sul-mato-grossense. O trabalho do Exército, nesse cenário, é também uma linha de defesa da economia e da segurança cotidiana de quem vive nessa região.
Fontes: COMANDO MILITAR DO OESTE