A China consolidou um papel duplo e decisivo para o agronegócio de Mato Grosso do Sul: é o principal destino da soja produzida no estado e, ao mesmo tempo, a maior fornecedora dos insumos sem os quais a lavoura não sai do campo. Em 2022, o país asiático importou 87 milhões de toneladas de soja brasileira — o equivalente a 80% de tudo que o Brasil exportou do grão —, números que movimentaram portos, ferrovias e definiram o preço que chegou ao bolso dos produtores sul-mato-grossenses.
A relação não é nova, mas ganhou escala e complexidade nos últimos anos. Com um PIB que deve alcançar 140 trilhões de yuans em 2025, a China ampliou sua influência sobre commodities globais de forma sem precedente. Para quem planta soja no Cone Sul de MS — de Dourados a Maracaju — ou no Norte do estado, em Chapadão do Sul e São Gabriel do Oeste, isso se traduz numa dependência de mão dupla que poucos setores conhecem tão bem.
A soja é a principal commodity exportada por Mato Grosso do Sul, e a China absorve a fatia dominante dessa produção. Quando Pequim reduz compras — por política comercial, câmbio ou excesso de estoque —, o preço da saca cai nos mercados de Dourados e Campo Grande em questão de horas. O inverso também é verdade: um ciclo de compras aceleradas chinês aquece toda a cadeia, do produtor de Caarapó ao corredor logístico da Ferroeste. Não há barreira geográfica que isole o produtor sul-mato-grossense desse termômetro.
A dependência foi reforçada pela ausência de compradores alternativos na mesma escala. União Europeia e Indonésia compram soja brasileira, mas nenhum mercado se aproxima do volume chinês. Isso significa que qualquer decisão de política agrícola tomada em Pequim — subsídio interno, imposto de importação, variação cambial do yuan — reverbera direto nas cotações que chegam às cooperativas de Naviraí e Amambai.
O que torna a equação ainda mais delicada é o lado da importação. O Brasil não produz nem 20% dos fertilizantes que consome, e a China é um dos maiores fornecedores do insumo para o mercado brasileiro. Em Mato Grosso do Sul, onde a soja ocupa milhões de hectares e exige reposição constante de nutrientes no solo, qualquer oscilação no preço ou na oferta de adubo chega diretamente ao custo de produção.
Na prática, o produtor sul-mato-grossense exporta para a China e importa da China ao mesmo tempo — com margens apertadas nos dois lados quando as cotações do yuan e do dólar se movem na direção errada. Quando a China restringe exportações de fertilizantes nitrogenados — algo que ocorreu em 2021 e voltou a preocupar o setor em ciclos recentes —, o custo do plantio sobe antes mesmo de a safra começar.
A expectativa do setor é que a China siga importando soja, algodão e açúcar brasileiros nos próximos anos, mantendo MS como fornecedor estratégico. Mas os riscos não desapareceram: o governo chinês investiu em expandir área plantada internamente e diversificar fornecedores, buscando reduzir dependência do Brasil — o que pode pressionar preços no médio prazo.
Para os produtores de Mato Grosso do Sul, a lição que o setor já aprendeu é que acompanhar o mercado chinês deixou de ser diferencial e virou obrigação. Entender quando Pequim compra, quanto compra e a que preço é tão importante quanto monitorar a umidade do solo antes do plantio. A safra sul-mato-grossense, cada vez mais, começa e termina com uma decisão tomada do outro lado do Pacífico.
Fontes: CANAL RURAL, MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA