O Brasil caminha para mais uma safra agrícola de grandes proporções, mas o cenário positivo para a produção de commodities vem acompanhado de um desafio crescente: a pressão sobre o mercado de diesel. Com o início do plantio de soja e algodão e o escoamento da segunda safra de milho, a demanda pelo combustível deve atingir níveis elevados justamente em um momento de oferta global restrita.
O diesel é essencial para praticamente toda a operação agrícola brasileira, desde o funcionamento de tratores e colheitadeiras até o transporte da produção para armazéns, ferrovias e portos. Como resultado, qualquer aumento nos preços do combustível tem impacto direto sobre os custos de produção e sobre a competitividade do agronegócio nacional.
Atualmente, o Brasil lidera as exportações mundiais de produtos como soja, algodão, café, açúcar e suco de laranja. Entretanto, apesar da força no campo, o país também figura entre os maiores importadores de diesel do mundo, atrás apenas da Austrália. Essa dependência do mercado externo amplia a vulnerabilidade do setor diante das oscilações internacionais de oferta e preço.
A situação se agravou nos últimos meses devido a fatores geopolíticos. Conflitos envolvendo o Irã afetaram rotas estratégicas de transporte de derivados de petróleo, enquanto a Rússia, tradicional fornecedora de diesel para diversos mercados, reduziu exportações em meio aos impactos da guerra e ataques a refinarias. O resultado é um mercado global mais apertado e com menor disponibilidade do combustível.
Especialistas apontam que a demanda brasileira por diesel deverá crescer significativamente durante os próximos meses. A sobreposição entre o período de plantio das principais culturas de verão e a comercialização da safra de milho faz o consumo avançar cerca de 200 mil barris por dia acima dos níveis registrados na entressafra.
Outro fator de preocupação é a crescente dependência das importações provenientes dos Estados Unidos. O combustível norte-americano já responde por parcela importante do abastecimento brasileiro e pode ganhar ainda mais relevância caso as restrições globais persistam. Isso também tende a aumentar a concorrência internacional pelo produto e pressionar os preços.
No campo, produtores relatam apreensão com o cenário. O aumento dos custos de combustível reduz margens de lucro justamente em um momento em que muitos agricultores ampliam áreas cultivadas para aproveitar as boas perspectivas de produção.
Além dos impactos internos, o encarecimento do diesel no Brasil pode ter reflexos globais. Como o país ocupa posição estratégica no fornecimento internacional de alimentos e matérias-primas agrícolas, custos mais altos de produção e transporte podem influenciar preços em diversas cadeias de abastecimento ao redor do mundo.
Segundo projeções da consultoria StoneX, a demanda nacional por diesel deverá continuar em alta ao longo de 2026, impulsionada principalmente pelo agronegócio. A expectativa é de importações em volumes próximos de recordes históricos para atender ao crescimento do consumo.
Assim, embora a safra recorde reforce o protagonismo do Brasil no mercado global de alimentos, o sucesso da temporada dependerá também da capacidade do país de garantir abastecimento de diesel em um cenário internacional cada vez mais desafiador.