Operação Peça-Chave: empresário de Ponta Porã sacou R$ 10 mi em caixas
PF e Receita Federal cumpriram mandados em Ponta Porã e em São Paulo contra grupo que movimentou R$ 146 milhões com peças BMW e Mercedes contrabandeadas do Paraguai.
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Um empresário de Ponta Porã, cidade da fronteira sul-mato-grossense com o Paraguai, sacou pelo menos R$ 10 milhões em caixas eletrônicos ao longo de cinco anos e é o principal alvo da Operação Peça-Chave, deflagrada nesta quinta-feira (27) pela Polícia Federal e pela Receita Federal. A investigação mira uma organização criminosa especializada em introduzir peças automotivas de marcas como BMW, Mercedes-Benz e Smart no Brasil sem pagar impostos, usando a fronteira do Mato Grosso do Sul como porta de entrada.
O grupo movimentou ao menos R$ 146 milhões entre 2018 e 2023 sem que fosse possível comprovar a origem ou o destino do dinheiro — cifra que coloca a organização no radar da suspeita de lavagem de dinheiro em escala industrial. Os saques em espécie em agências bancárias da fronteira foram apenas uma das facetas do esquema financeiro identificado pelos investigadores.
Da fronteira de MS até as autopeças do ABC PaulistaO funcionamento da engrenagem era relativamente simples na logística, mas sofisticado o suficiente para passar anos sem ser desmontado. As peças automotivas eram importadas legalmente até o Paraguai e, de lá, cruzavam a fronteira em Ponta Porã sem o recolhimento dos tributos alfandegários devidos no Brasil. A cidade, a 313 km de Campo Grande, funcionava como o nó central da operação.
Do lado de cá da divisa, as mercadorias percorriam via terrestre até São Paulo, onde eram vendidas em estabelecimentos de autopeças na capital e nas cidades de Santo André e São Bernardo do Campo. Esses pontos também foram alvos de mandados de busca e apreensão na operação desta quinta-feira. O atrativo para os compradores era o preço: produtos de marcas premium vendidos bem abaixo da concorrência — possível justamente porque os impostos de importação jamais foram recolhidos.
Sobrinho secretário parlamentar e empresas de fachadaAlém do empresário, o sobrinho dele — um comerciante de 47 anos que entre maio de 2023 e julho de 2024 atuou como secretário parlamentar nomeado em Brasília — também teve endereços vasculhados pela PF. Segundo os investigadores, os dois atuam como operadores do esquema, sendo responsáveis por receber e distribuir os carregamentos.
O dinheiro obtido com a sonegação era lavado por caminhos variados: transferências bancárias para pessoas sem capacidade financeira compatível com os valores recebidos, empresas criadas exclusivamente para emitir notas fiscais frias — as chamadas "noteiras" —, e até a compra de obras de arte. As mercadorias entravam nas lojas sem registro formal em estoque, completando o ciclo de ocultação.
O peso da fronteira de MS no combate ao contrabandoA Operação Peça-Chave reacende o debate sobre o papel estratégico — e os riscos — da extensa fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, sua cidade-gêmea paraguaia, formam um dos pontos de maior fluxo comercial informal do país, e operações como esta mostram que o contrabando vai muito além dos produtos cotidianos: envolve planejamento financeiro, uso de pessoas interpostas e ramificações que chegam a gabinetes em Brasília.
A Delegacia da PF em Ponta Porã conduziu as investigações localmente, e a operação desta quinta-feira reuniu equipes em pelo menos dois estados — Mato Grosso do Sul e São Paulo —, o que indica o alcance nacional que esquemas originados na fronteira sul-mato-grossense podem atingir. O inquérito segue aberto, e novas fases da operação não foram descartadas pelas autoridades.
Fontes: POLÍCIA FEDERAL, RECEITA FEDERAL