El Niño garante seca e calor até outubro no MS, com risco para semeadura da soja
Inmet projeta trimestre com temperaturas até 2°C acima do normal em Mato Grosso do Sul e chuvas abaixo da média, pressionando lavouras de verão.
Divulgação
Mato Grosso do Sul vai enfrentar um trimestre de calor acima do normal e chuvas escassas entre agosto e outubro, segundo o prognóstico climático divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A combinação de temperaturas até 2°C acima do padrão histórico e precipitações abaixo da média coloca o estado em alerta tanto para as lavouras em curso quanto para o início da semeadura da soja, que deve ocorrer nas próximas semanas nas regiões mais quentes do Centro-Oeste.
O cenário não é isolado: grande parte do Brasil — Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste — enfrentará condições semelhantes no mesmo período. A principal força por trás dessa configuração é a manutenção do El Niño, que em julho registrou índice de 1,37 na região Niño 3.4, bem acima do limiar de 0,5 que caracteriza o fenômeno. O modelo do Instituto de Pesquisa do Clima e Sociedade (IRI) aponta probabilidade próxima de 100% de continuidade do El Niño até o trimestre agosto-setembro-outubro, com forte chance de a fase quente se estender até o início de 2027.
Colheita favorecida, semeadura em riscoPara as culturas que já estão no campo, o tempo seco e quente tem um lado positivo: o Inmet aponta que as condições devem facilitar a colheita do milho segunda safra, do algodão e do sorgo, além de favorecer a secagem natural dos grãos, reduzindo custos com secagem artificial. Em Mato Grosso do Sul, onde o milho safrinha tem peso expressivo na balança do agronegócio, esse dado é relevante para os produtores que ainda estão encerrando a operação.
O problema começa quando se olha para o que vem a seguir. A irregularidade das chuvas e o déficit de umidade no solo podem atrasar a janela de semeadura da soja em áreas de sequeiro — exatamente o modelo predominante no estado. O Inmet alerta que plantar com umidade inadequada aumenta o risco de falhas de estande e necessidade de replantio, o que eleva custos e pode comprometer o rendimento da safra 2025/2026. A situação é ainda mais delicada no norte de Mato Grosso e nas porções norte e nordeste de Goiás, onde o déficit hídrico tende a ser mais intenso.
Norte de MS pode ser o ponto crítico da regiãoDentro do próprio Mato Grosso do Sul, a distribuição das chuvas não será uniforme. As áreas mais ao norte do estado — que fazem fronteira com Mato Grosso e têm vocação agrícola intensa, com municípios como Chapadão do Sul, Costa Rica e Sonora — devem concentrar as maiores pressões de déficit hídrico. São justamente essas regiões que dependem das primeiras chuvas de setembro e outubro para iniciar o plantio da soja dentro do calendário ideal.
O calor prolongado também impacta a criação de gado, setor estrutural da economia sul-mato-grossense. Temperaturas consistentemente acima da média ao longo de três meses elevam o estresse térmico nos animais, podendo reduzir o ganho de peso e a eficiência reprodutiva dos rebanhos. A combinação de pasto mais seco e animais estressados é um alerta que o produtor pecuarista de MS precisa ter no radar.
Sul do Brasil no caminho oposto — e o que isso muda para MSEnquanto o Centro-Oeste sofre com a seca, a Região Sul viverá o cenário inverso: excesso de chuvas, com desvios positivos entre 50 e 100 mm no oeste e centro-sul de Santa Catarina e superando 100 mm no centro do Rio Grande do Sul. O Paraná, que divide fronteira agrícola com o noroeste de Mato Grosso do Sul, também deve ter excedentes hídricos significativos a partir de setembro.
Esse excesso no Sul traz consequências para a logística que interessa diretamente ao agronegócio sul-mato-grossense. Atrasos na colheita de trigo, cevada e canola no Sul — culturas de inverno que dividem máquinas e infraestrutura com as lavouras de verão — podem pressionar a demanda por armazenagem e transporte justo no momento em que MS começará a escoar os grãos da safra de inverno e se preparar para receber os insumos da soja. Portos e ferrovias que atendem a ambas as regiões podem sentir o gargalo.
O boletim completo do Inmet está disponível no portal do instituto e é atualizado trimestralmente. Produtores e técnicos agrícolas de Mato Grosso do Sul devem acompanhar as atualizações semanais de previsão do tempo para ajustar o calendário de plantio à medida que as primeiras chuvas de outubro se aproximam — ou se atrasam.
Fontes: INMET