Javalis contaminam ração de gado e destroem soja recém-semeada em MS

Espécie invasora já está presente em todo o Brasil e avança sobre propriedades com soja, milho e pecuária, trazendo risco sanitário aos rebanhos.

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O javali — animal invasor sem predadores naturais no Brasil — já chegou às propriedades rurais de Mato Grosso do Sul e preocupa produtores que cultivam soja e milho ou criam gado. A espécie, que começou sua expansão pelo Sul do país há décadas, hoje é avistada em praticamente todas as regiões do território nacional, e sua presença nas fazendas vai além do estrago nas lavouras: o animal representa também um risco sanitário direto para os rebanhos bovinos.

O avanço coincide com a expansão da fronteira agrícola. Onde há grãos disponíveis no solo ou ração armazenada a céu aberto, os javalis encontram condições ideais para se estabelecer — e se reproduzir em larga escala. Em Mato Grosso, estado que divide características produtivas com Mato Grosso do Sul, o cenário já é considerado crítico pela Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso).

Do plantio à pecuária: nenhuma atividade está a salvo

O dano mais imediato acontece nas lavouras de soja logo após o plantio. Com o focinho adaptado para revolver o solo, os javalis desenterram sementes recém-semeadas antes mesmo que as plantas emerjam — um prejuízo que pode comprometer talhões inteiros em poucas noites. "O javali utiliza o focinho para revolver o solo, principalmente na formação de ninhos onde as fêmeas fazem o parto. Nesse processo, acaba consumindo também a soja recém-semeada e causando grandes estragos dentro das lavouras", explica Marcos Carvalho, analista de Pecuária da Famato.

Nas propriedades de pecuária de corte, o problema tem outra face. Os animais invadem cochos e áreas de fornecimento de ração, consumindo o alimento destinado ao gado. Mas o estrago mais grave não é o custo da ração desperdiçada: ao urinar e defecar nos mesmos locais onde o rebanho se alimenta, os javalis criam um vetor de contaminação com potencial para transmitir doenças de alta relevância sanitária. "Os javalis consomem esse alimento e acabam urinando e defecando na área, o que representa um risco sanitário para a propriedade", alerta Carvalho.

Expansão que acompanha a soja pelo mapa do Brasil

A lógica de ocupação do javali segue a disponibilidade de alimento — e no Centro-Oeste, isso significa seguir o rastro da soja e do milho. "O javali está disseminado em todo o território nacional. Ele começou no Sul e foi avançando em direção ao Norte. Em Mato Grosso, temos uma grande quantidade de animais sendo avistados nas propriedades rurais, principalmente onde há soja e milho", disse o analista da Famato ao canal especializado Soja Brasil.

Em Mato Grosso do Sul, segundo maior produtor de soja do Centro-Oeste e com rebanho bovino entre os maiores do país, o cenário de expansão da espécie já é observado em diversas regiões — especialmente no Cone Sul, no Bolsão e nas áreas de transição Cerrado-Pantanal. A combinação de lavouras extensas, pecuária intensiva e vegetação nativa próxima cria um ambiente favorável para a proliferação do animal, que não tem predadores naturais na fauna brasileira e se reproduz rapidamente.

Controle legal é a saída — e a cerca elétrica é o primeiro passo

A Famato orienta que produtores adotem medidas preventivas imediatas sem aguardar o agravamento do problema. A instalação de cercas elétricas na parte inferior dos cercamentos — altura que corresponde ao porte do animal — é apontada como uma das estratégias mais eficazes para impedir a entrada dos javalis nas lavouras e nos cochos. "Muitos produtores relatam o uso de cerca elétrica na parte inferior para impedir a entrada dos animais e outras estratégias para bloquear o acesso às fontes de alimento", destaca Carvalho.

Além das barreiras físicas, o controle populacional é considerado indispensável. Por se tratar de espécie exótica invasora — sem respaldo legal para permanência livre no território —, a captura e o manejo dos animais são permitidos dentro das normas estabelecidas pelos órgãos ambientais competentes, como o Ibama. "É um problema sério e o produtor precisa utilizar as ferramentas disponíveis para o controle, sempre dentro da legalidade", reforça o analista.

Para Mato Grosso do Sul, onde a safra de soja 2025/26 movimentou bilhões de reais e o rebanho bovino ultrapassa 22 milhões de cabeças, ignorar a presença do javali pode custar caro — tanto em produtividade nas lavouras quanto na sanidade dos rebanhos, tema cada vez mais central para a manutenção dos mercados exportadores.

Fontes: FAMATO, IBAMA