Açúcar bate máxima em 15 meses com déficit global e seca no Brasil

Queda de 26% na produção do Centro-Sul brasileiro e risco climático na Índia empurram cotações a patamares não vistos desde 2024.

Por
Açúcar bate máxima em 15 meses com déficit global e seca no Brasil
Divulgação

O açúcar fechou a sessão desta segunda-feira (10) no maior patamar em até 15 meses nas principais bolsas internacionais, impulsionado por uma combinação de fatores que comprime a oferta global: a produção brasileira em forte recuo, a Europa enfrentando a pior colheita em mais de uma década e projeções de déficit que se multiplicaram entre as consultorias especializadas. O movimento, que se intensificou desde o fim de julho, indica que o mercado do adoçante pode ter virado uma nova página de preços para a temporada 2026/27.

Para o agronegócio sul-mato-grossense, que tem no setor sucroenergiético um elo relevante — especialmente no corredor que liga a região de Três Lagoas e Sidrolândia às usinas do Centro-Sul —, a alta das cotações internacionais costuma repercutir nas negociações de cana e nos contratos de fornecimento de etanol. O momento exige atenção redobrada de produtores e cooperativas.

Brasil puxa queda e mercado sente o baque

Os dados divulgados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) acenderam o alerta: as usinas do Centro-Sul produziram apenas 3,903 milhões de toneladas de açúcar em junho, uma retração de 26,3% frente ao mesmo período da safra anterior. O número é expressivo para o maior produtor mundial da commodity e retirou do mercado internacional um volume que não tem substituto imediato.

Na Europa, o cenário não é diferente. A conjugação de seca prolongada e temperaturas acima da média deve reduzir a produção de açúcar da União Europeia e do Reino Unido para 14,98 milhões de toneladas neste ciclo, o menor volume em 11 anos, segundo levantamento da S&P Global Energy. Com dois grandes blocos produtores abaixo do esperado, as cotações internacionais encontraram fundamento sólido para subir.

Consultorias revisam déficit para cima — e com força

O que mais chama atenção dos analistas é a velocidade e a magnitude das revisões feitas pelas principais consultorias do setor. A Covrig Analytics virou o jogo: antes previa superávit de 100 mil toneladas para 2026/27 e agora projeta déficit de 300 mil toneladas. A guinada reflete como as condições produtivas se deterioraram em curto espaço de tempo.

A Green Pool Commodity Specialists foi ainda mais longe e dobrou sua estimativa de déficit, que saltou de 1,76 milhão de toneladas para 3,3 milhões de toneladas. Já a StoneX revisou de 550 mil toneladas em maio para 1,7 milhão de toneladas agora. Com três consultorias apontando na mesma direção e ampliando as projeções, a leitura do mercado é de que a oferta ficará aquém da demanda ao longo de toda a próxima temporada.

Nas bolsas, o reflexo foi imediato. Em Nova Iorque, o contrato de açúcar bruto para outubro encerrou a 16,47 cents de dólar por libra-peso, maior cotação em 10 meses. Em Londres, o açúcar branco chegou a US$ 506,10 por tonelada, máxima em 15 meses.

Índia e El Niño colocam mais pressão sobre o abastecimento mundial

Se o presente já preocupa, o horizonte climático adiciona uma camada de incerteza difícil de ignorar. A Índia, segundo maior produtor global de açúcar, enfrenta perspectivas de monções abaixo do normal entre agosto e setembro — período decisivo para o desenvolvimento da cana-de-açúcar no país. O Departamento Meteorológico da Índia já sinalizou que a temporada de 2025 pode ser a mais fraca em 11 anos, revisando a previsão de chuvas para 90% da média histórica.

Somado a isso, o El Niño ronda as principais regiões produtoras do planeta. O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos indicou em julho que o atual episódio pode figurar entre os mais intensos das últimas décadas. O fenômeno tende a secar exatamente as áreas que mais importam para a produção de açúcar: Brasil, Índia e Tailândia. Para Mato Grosso do Sul, que convive com impactos diretos do El Niño na produção agrícola, o alerta climático já familiar no campo ganha agora uma dimensão extra no mercado internacional do adoçante.

Com as cotações em alta, o setor sucroenergiético observa se o movimento se sustenta ou se novos dados de safra, especialmente do Brasil ao longo do segundo semestre, vão redefinir o patamar dos preços. O que parece certo, por ora, é que o mercado entrou em modo de escassez — e esse sentimento raramente recua rapidamente.

Fontes: UNICA, S&P GLOBAL ENERGY, COVRIG ANALYTICS, GREEN POOL COMMODITY SPECIALISTS, STONEX, DEPARTAMENTO METEOROLÓGICO DA ÍNDIA, CENTRO DE PREVISÃO CLIMÁTICA DOS EUA


Tags »
Notícias Relacionadas »