Chuvas elevaram custos, mas milho no norte de MT chega à reta final com bom rendimento
Produtores do norte mato-grossense encerram a safra de milho com produtividade satisfatória, mas pressão financeira e falta de armazenagem seguem como obstáculos ao setor.
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A safra de milho no norte de Mato Grosso caminha para o encerramento com um paradoxo que resume a temporada: as chuvas que atrasaram o plantio e encareceram as operações de campo foram, ao mesmo tempo, as responsáveis por garantir o bom desempenho das lavouras. O resultado é uma produtividade acima do esperado que, no entanto, não tranquiliza o produtor rural diante das contas no vermelho.
A situação evidencia uma tensão estrutural do agronegócio brasileiro: colheitas volumosas nem sempre se traduzem em rentabilidade. No centro-oeste, onde Mato Grosso e Mato Grosso do Sul concentram parte expressiva da produção nacional de grãos, o cenário de custo elevado combinado com preços deprimidos no mercado interno acende o alerta para a viabilidade econômica das próximas temporadas.
Chuva em excesso virou faca de dois gumes para os agricultoresA precipitação acima da média registrada durante a janela de plantio do milho safrinha no norte mato-grossense foi o principal fator de desequilíbrio da temporada. As chuvas prolongadas obrigaram equipes a interromper operações de campo por períodos maiores do que o planejado, elevando o custo com maquinário, mão de obra e defensivos aplicados em condições adversas. A umidade excessiva também exigiu maior atenção ao controle de doenças fúngicas nas lavouras.
Contraditoriamente, essa mesma umidade abasteceu o solo em profundidade suficiente para sustentar o desenvolvimento das plantas nas fases críticas de florescimento e enchimento de grãos. O efeito prático foi uma produtividade que, em diversas propriedades da região, superou as estimativas feitas no início do ciclo — um alívio parcial para produtores que entraram na colheita já preocupados com as margens apertadas.
Armazenagem insuficiente pressiona o escoamento da produçãoCom os silos e armazéns da região operando próximos da capacidade, a pressão sobre a logística de escoamento se torna um dos principais gargalos do fechamento desta safra. A falta de estrutura de armazenagem própria força parte dos produtores a vender o grão no momento da colheita, quando a oferta elevada derruba ainda mais as cotações — um ciclo que corrói a rentabilidade mesmo em anos de boa produção.
O problema não é novo, mas se agrava à medida que a produção cresce sem expansão proporcional da infraestrutura. Para produtores menores e médios, sem capital de giro para aguardar uma janela de preços mais favorável, a única saída é aceitar as cotações do momento — o que, na prática, significa absorver o prejuízo gerado pelo excesso de oferta no período de pico da colheita.
O que o cenário de MT significa para Mato Grosso do SulO comportamento da safra no norte de Mato Grosso funciona como termômetro antecipado para o agronegócio sul-mato-grossense. Mato Grosso do Sul também concentra produção relevante de milho safrinha, especialmente nas regiões de Maracaju, Rio Brilhante e Dourados, e enfrenta desafios similares de infraestrutura logística e volatilidade de preços. A baixa rentabilidade registrada no estado vizinho influencia diretamente as decisões de plantio dos produtores sul-mato-grossenses para a próxima temporada — seja na escolha da cultura, no nível de investimento em insumos ou na estratégia de comercialização adotada.
O fechamento desta safra de milho reforça um debate que o setor vem adiando: sem avanço concreto em capacidade de armazenagem e melhora nas condições de escoamento, mesmo colheitas volumosas tendem a se traduzir em frustração financeira para quem produz. A boa produtividade de 2026 pode ser interpretada como um sinal positivo de resiliência do campo, mas o alerta estrutural permanece em aberto.
Fontes: CANAL RURAL