MS usa só 6,5% do biometano possível em usinas de cana
Levantamento da ABREN mostra que 20 usinas sul-mato-grossenses produzem só 8,16 milhões de m³ por ano, uma fração do potencial estadual
Reprodução/semadesc.ms.gov.br (imagem ilustrativa)
Mato Grosso do Sul deixa de aproveitar a grande maioria do gás que poderia extrair das suas próprias usinas de cana-de-açúcar. Um levantamento apresentado pela Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN) durante o Bio Energy Summit, realizado em 16 de setembro de 2026 em Campo Grande, revela que o Estado produz apenas 8,16 milhões de metros cúbicos de biometano por ano — o equivalente a só 6,5% do potencial estimado para o setor sucroenergético local.
O número chama atenção porque Mato Grosso do Sul não é um estado pequeno nesse mercado: são 20 usinas sucroenergéticas distribuídas por 42 municípios, ocupando cerca de 800 mil hectares de cana-de-açúcar. Juntas, essas plantas teriam capacidade para gerar 126 milhões de m³ de biometano por safra — o equivalente a 345 mil m³ por dia, um volume que hoje simplesmente não chega a se transformar em energia.
A vinhaça esquecida dentro da própria usinaO gargalo, segundo a ABREN, tem nome e endereço certo: a vinhaça, resíduo líquido gerado durante a fabricação do etanol. Ela já sai da produção coletada, canalizada e concentrada dentro das próprias usinas — ou seja, sem custo extra de logística para ser captada. "A vinhaça já está coletada, canalizada e concentrada dentro da usina. É o substrato de menor custo logístico do país e, em Mato Grosso do Sul, o menos explorado", afirmou Yuri Schmitke, presidente executivo da ABREN, durante o evento.
Mesmo com essa vantagem logística, o Estado ocupa apenas a sexta posição do país em número de plantas de biogás, com 107 unidades instaladas, e nem chega a figurar entre os dez maiores produtores nacionais quando o critério é volume gerado.
Projetos em andamento não resolvem o problemaHá investimentos em curso: projetos já contratados ou em fase de implantação devem elevar a produção estadual para 44,71 milhões de m³ por ano. É um salto expressivo em relação ao volume atual, mas ainda assim insuficiente — pelas contas da própria ABREN, cerca de 64,5% do potencial das usinas já instaladas continuará sem nenhum projeto associado, mesmo depois dessas novas plantas entrarem em operação.
Para a entidade, destravar esse potencial depende de empreendimentos de maior escala, da integração entre usinas vizinhas para dividir custos de infraestrutura e da ampliação do acesso à rede de gás no Estado. A ABREN defende que Mato Grosso do Sul seja tratado como um projeto-piloto nacional para um polo agroindustrial de biometano, dada a concentração de usinas e a disponibilidade de matéria-prima já processada.
Fontes: ABREN; JORNALCANA; JD1 NOTÍCIAS