Produtor de MS segura estoque enquanto milho cai R$ 1 por saca
Pressão de Chicago derrubou contratos futuros na B3 nesta terça-feira (4), mas dólar em alta evitou perdas maiores para o mercado doméstico.
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O milho brasileiro fechou a sessão desta terça-feira (4) em queda na B3, pressionado por uma onda de liquidação técnica que varreu os mercados futuros em Chicago e arrastou as cotações domésticas para baixo. Os contratos com vencimento em setembro recuaram até R$ 68,65 por saca, enquanto o de março ficou em R$ 78,34 — perdas que variaram de 0,2% a 0,5% no mercado brasileiro. No campo, a reação foi de espera: produtores de Mato Grosso do Sul e de outros estados produtores seguram o grão na tulha, apostando em uma recuperação antes de fechar negócio.
O movimento reflete um ambiente externo cada vez mais adverso para o cereal. A Bolsa de Chicago registrou recuos entre 6,50 e 7,00 centavos de dólar por bushel, com o contrato setembro encerrando a US$ 4,42 e o dezembro a US$ 4,65. A combinação de lavouras em boas condições nos Estados Unidos, queda acentuada do petróleo e realização de lucros por parte dos fundos criou um clima de aversão ao risco que contaminou rapidamente os negócios no Brasil.
Dólar segura o tombo, mas não reverte o cenárioSe não fosse a valorização do dólar frente ao real, as perdas no mercado brasileiro seriam ainda mais expressivas. A divisa americana funcionou como amortecedor, tornando o milho exportado pelo Brasil relativamente mais competitivo e reduzindo o incentivo para que vendedores aceitem preços menores. Ainda assim, o efeito protetor teve limites claros: a pressão de Chicago foi intensa o suficiente para empurrar as cotações para baixo ao longo de toda a sessão.
Analistas da Agrinvest Commodities resumiram bem o momento: "O mercado do milho segue com pouca liquidez. No Mato Grosso, os preços recuaram cerca de R$ 1,00 por saca, acompanhando a pressão de Chicago. No físico, os produtores continuam retraídos, aguardando uma retração das cotações antes de avançar com novas vendas". O diagnóstico vale igualmente para Mato Grosso do Sul, onde a dinâmica de comercialização segue travada pela mesma lógica: quem já tem o grão armazenado prefere aguardar.
Safra americana em boa forma pesa nas cotações globaisO principal vilão das cotações, neste momento, está nos campos do Corn Belt americano. O USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) divulgou na segunda-feira (3) uma leve redução no percentual de lavouras classificadas como boas ou excelentes — de 63% para 61% —, mas o ajuste foi insuficiente para alterar o sentimento do mercado. A safra norte-americana caminha sem ameaças climáticas relevantes, o que tira o argumento de escassez que costuma sustentar altas de preço.
Os mapas climáticos mais recentes reforçam esse quadro. Chuvas acima da média em partes do Corn Belt aliviaram as preocupações com o desenvolvimento das plantas, mesmo com temperaturas acima do normal em todo o território americano. "As chuvas dos últimos dias aliviaram parte das preocupações e trouxeram pressão para as cotações. Tanto na CBOT, quanto na Euronext, as cotações do milho e do trigo trabalham em queda", informou a Agrinvest Commodities. A firma também destacou que negociações geopolíticas em curso — como a mediação turca para garantir a navegação no Mar Negro e o possível acordo entre Irã e Estados Unidos — estão no radar dos investidores, mas ainda sem impacto definitivo sobre os preços.
O que espera o produtor sul-mato-grossensePara quem produz milho em Mato Grosso do Sul, o cenário de curto prazo pede cautela. O estado é um dos maiores produtores da segunda safra (safrinha) no Brasil, e qualquer movimento de queda nas cotações internacionais repercute diretamente na rentabilidade local. Com produtores retraídos e liquidez baixa no mercado físico, a tendência é de que os preços permaneçam pressionados enquanto não surgir um catalisador externo — seja uma deterioração climática nos EUA, uma demanda inesperada da China ou um novo choque geopolítico que restrinja a oferta global.
No médio prazo, analistas apontam que o comportamento do dólar seguirá sendo variável-chave para os agricultores brasileiros. Uma divisa americana forte amortece perdas, mas não resolve o problema estrutural: enquanto a safra americana avançar sem sobressaltos, o espaço para recuperação das cotações do milho permanece limitado — tanto em Chicago quanto nos pregões da B3.
Fontes: AGRINVEST COMMODITIES, USDA, B3