Cacau dispara 5% na bolsa após Gana projetar queda de 16% na safra

Previsão de quebra de produção na África Ocidental em 2026/27 pressiona mercado global e deve encarecer o chocolate para o consumidor brasileiro

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O mercado global de cacau encerrou julho em alta expressiva: os contratos futuros na Bolsa ICE de Londres subiram 5,3% na última sexta-feira, fechando a £4.011 por tonelada, enquanto os contratos de Nova York avançaram 5,6%, chegando a US$ 5.397 por tonelada. O principal gatilho foi o anúncio do Cocobod, órgão regulador do mercado de cacau de Gana, de que a produção do país deve recuar pelo menos 16% na safra 2026/27 — uma das principais fontes mundiais da matéria-prima do chocolate.

O alerta não pegou o mercado de surpresa, mas confirmou o que agricultores ganenses já vinham sinalizando há meses. Segundo o Cocobod, uma combinação de fatores está por trás da expectativa de queda: efeitos climáticos adversos, o ciclo natural de frutificação do cacaueiro e o avanço de doenças nos pomares. Para quem acompanha a cadeia do agronegócio em Mato Grosso do Sul, o movimento merece atenção — e não apenas pelos reflexos nos custos de insumos e produtos industrializados que chegam ao estado.

África Ocidental sob pressão: o que está em jogo na próxima safra

Gana e Costa do Marfim juntos respondem por cerca de 60% de toda a produção mundial de cacau. Qualquer instabilidade nessas regiões reverbera diretamente nos preços das bolsas internacionais e, por consequência, no custo do chocolate consumido no Brasil. A projeção divulgada pelo Cocobod reforça um cenário de oferta apertada que já vinha sendo monitorado por traders desde o início do ano.

O ciclo natural de frutificação do cacaueiro — que alterna anos de produção mais intensa com períodos de menor rendimento — somado às mudanças climáticas que afetam a regularidade das chuvas na região, cria um ambiente de incerteza estrutural para o mercado. Não se trata de um problema pontual, mas de uma tendência que pode manter os preços elevados por mais de uma safra.

Hershey sobe preços e consumidor sente no bolso

O impacto já chegou às prateleiras. A Hershey, uma das maiores fabricantes de chocolate dos Estados Unidos, anunciou em seu relatório de resultados do segundo trimestre que repassou um aumento de 12% nos preços de seus produtos ao mercado. A contrapartida foi imediata: o volume de vendas recuou 8% no mesmo período, sinal de que o consumidor reagiu ao encarecimento.

O movimento da Hershey ilustra um dilema que marcas de chocolate em todo o mundo enfrentam: absorver margens menores ou transferir o custo ao consumidor e arriscar perder volume. No Brasil, onde o chocolate é um item popular em todas as faixas de renda, a pressão sobre os preços já começou a aparecer nas gôndolas e tende a se intensificar caso a safra africana confirme as projeções negativas. Para o varejo de Mato Grosso do Sul, especialmente em Campo Grande e nas cidades do interior, o reflexo deve ser sentido nos próximos meses.

Sinal de recuperação da demanda anima o mercado

Em meio ao cenário de oferta restrita, o mercado também captou um sinal positivo: dados recentes de moagem — processo industrial que transforma o cacau bruto em pasta, manteiga e pó — indicam que a demanda global começa a se recuperar. Após um período de contração provocado pelo encarecimento da matéria-prima, a indústria chocolateira parece retomar o ritmo de compras, o que contribuiu para sustentar as altas registradas ao longo de julho.

O contrato de Londres acumulou ganho de 5% no mês, enquanto o de Nova York avançou 8% em julho — desempenho que mostra uma recomposição consistente após as volatilidades do primeiro semestre. O açúcar e o café arábica também fecharam o dia em alta, reforçando um movimento de valorização mais amplo nas soft commodities. Para produtores e negociantes ligados ao agronegócio de MS, que exportam soja, milho e carne mas também consomem insumos e produtos derivados dessas cadeias, o comportamento das commodities tropicais é um termômetro relevante do humor dos mercados internacionais.

Com a janela de plantio da nova safra ainda distante e as condições climáticas na África Ocidental seguindo incertas, analistas do setor preveem que a pressão sobre os preços do cacau deve se manter ao longo do segundo semestre de 2025. O consumidor brasileiro — e sul-mato-grossense — que aprecia um bom chocolate pode começar a sentir esse impacto bem antes do Natal.

Fontes: REUTERS, COCOBOD, HERSHEY