Argentina quer Mercosul mais flexível para negociar com outros mercados
Chanceler Pablo Quirno defendeu regras menos restritivas no bloco e citou o acordo com a União Europeia como exemplo de avanço possível mesmo em tempos de tensão política.
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O chanceler argentino Pablo Quirno reacendeu nesta quarta-feira, 29 de julho, o debate sobre o futuro do Mercosul ao defender publicamente que o bloco precisa adotar regras mais abertas e flexíveis — especialmente para que os países-membros possam negociar acordos comerciais com outras regiões do mundo sem entraves internos. A declaração foi dada em entrevista a uma rádio argentina e repercutiu entre os parceiros do bloco, incluindo o Brasil.
A posição da Argentina de Javier Milei não é nova, mas ganhou novo peso neste momento em que o Mercosul busca se reposicionar no cenário global após a entrada em vigor do histórico acordo com a União Europeia, firmado em 1º de maio depois de 25 anos de negociações. Para Mato Grosso do Sul — estado com exportações intensas de soja, carne e celulose para mercados europeus e asiáticos — qualquer mudança nas regras do bloco tem impacto direto na competitividade do agronegócio regional.
A visão argentina: menos amarras, mais acordosQuirno foi enfático ao descrever a postura de Buenos Aires dentro do bloco. "A Argentina defende a maior flexibilidade possível e a maior abertura possível", declarou o chanceler, acrescentando que o país não pode ficar "preso a um esquema" que o impeça de "se abrir ao mundo". A crítica implícita aponta para as regras atuais do Mercosul, que exigem que os membros negociem acordos externos em bloco — o que, na prática, dá poder de veto a qualquer sócio sobre as negociações dos demais.
O chanceler também fez questão de separar a agenda econômica das disputas políticas pessoais entre líderes. Ele reconheceu que há "diferenças marcantes" sobre o papel do Mercosul, mas afirmou que os atritos entre Milei e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva não impediram avanços concretos no bloco — citando justamente o acordo UE-Mercosul como prova.
Acordo com a Europa muda o jogo para exportadores do MSA entrada em vigor do acordo entre União Europeia e Mercosul em 1º de maio de 2026 já representa uma virada para setores exportadores de Mato Grosso do Sul. O estado figura entre os principais fornecedores nacionais de proteína animal, grãos e celulose — produtos que terão acesso facilitado ao mercado europeu com a redução gradual de tarifas prevista no acordo.
Se a Argentina conseguir avançar no argumento por mais flexibilidade, o cenário pode incluir, no médio prazo, negociações bilaterais ou regionais com países asiáticos, do Oriente Médio ou com os Estados Unidos — mercados que o Brasil também corteja. Para exportadores sul-mato-grossenses, a abertura de novas rotas comerciais significa potencial de valorização de commodities e diversificação de destinos, reduzindo a dependência de um único bloco comprador.
O que Mato Grosso do Sul tem a ganhar — e a perderO debate sobre a flexibilização do Mercosul é uma faca de dois gumes para o agronegócio de MS. De um lado, regras mais abertas podem criar oportunidades para que o Brasil — e o estado — acesse mercados hoje bloqueados por protecionismos cruzados dentro do próprio bloco. De outro, a fragmentação das negociações pode enfraquecer o poder de barganha coletivo que o Mercosul oferece em grandes acordos multilaterais.
Economistas e entidades do setor produtivo acompanham com atenção o movimento argentino. A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) e a Fiems têm defendido, em fóruns nacionais, que o Brasil mantenha a coesão do bloco sem abrir mão de acordos estratégicos com novos parceiros — uma posição que, curiosamente, não está tão distante do que Buenos Aires agora propõe.
O futuro do Mercosul continuará sendo moldado pelas tensões entre integração regional e abertura global — e Mato Grosso do Sul, como um dos estados mais exportadores do país e com fronteira direta com Paraguai e Bolívia, estará no centro desse debate a cada novo capítulo.
Fontes: CANAL RURAL, MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DA ARGENTINA