El Niño antecipa floradas do café no Brasil e ameaça safra de 2027
Chuvas atípicas no inverno prejudicam colheita de 2026 e preocupam especialistas com queda de produtividade no próximo ciclo, alertam técnicos da Cooxupé.
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As chuvas intensas e fora de época que castigam as principais regiões cafeeiras do Brasil estão provocando uma floração precoce nos cafezais — um fenômeno que preocupa especialistas não apenas pela colheita atual de 2026, já atrasada, mas especialmente pela produtividade da safra de 2027. O alerta foi feito nesta quarta-feira, 29 de julho, durante fórum promovido pela Cooxupé, a maior cooperativa de cafeicultores do país, por pesquisadores e agrônomos que monitoram o comportamento das lavouras sob influência do El Niño.
O inverno brasileiro deste ano quebrou padrões históricos: em vez do período seco que as plantas de café arábica precisam para acumular energia e florir em sincronia em setembro, as lavouras de regiões como o Sul de Minas Gerais e o Cerrado Mineiro estão recebendo volumes de chuva que simulam condições de fim de seca — o gatilho natural para o florescimento. O problema é que essa florada antecipada, mais fraca e desordenada, vai disputar os recursos da planta com a florada principal, comprometendo a formação dos grãos que abastecem o mercado mundial.
Competição entre frutos pode derrubar produtividadeA dinâmica fisiológica por trás do risco foi explicada pelo professor José Donizeti Alves, docente de Fisiologia Vegetal da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Quando a planta produz flores em agosto de forma antecipada, os frutos resultantes ganham tamanho antes que os grãos menores — chamados de chumbinhos — da florada principal de setembro estejam formados. "Quando tivermos chumbinho da florada de setembro, esses frutos da florada em agosto, maiores, vão competir, e pode ter queda acentuada de chumbinhos da segunda florada", explicou o professor. Em outras palavras: os frutos maiores da floração fora de hora tendem a vencer a batalha por nutrientes, e os grãos mais novos caem antes de se desenvolver.
Quanto mais floradas antecipadas ocorrerem ao longo das próximas semanas, maior será essa pressão interna na planta. O risco é que a safra de 2027 — ciclo que começa a se formar agora — chegue ao campo com um número significativamente menor de frutos viáveis por pé de café, reduzindo o volume total a ser colhido pelo Brasil, responsável pela maior fatia da produção e exportação global da commodity.
Colheita de 2026 já acumula atrasos e problemas de qualidadeAntes mesmo de pensar em 2027, o setor já lida com dificuldades concretas na safra em andamento. Segundo dados da Cooxupé, até o dia 24 de julho apenas 58,3% da área da cooperativa havia sido colhida — o menor percentual registrado para essa data em pelo menos oito anos, desde 2018. O engenheiro agrônomo Guilherme Vinícius Teixeira, coordenador de Geoprocessamento da cooperativa, descreveu um quadro preocupante no campo: "A qualidade é um ponto de atenção pelo alto volume de chuva na colheita, isso pode trazer fermentação indesejável e queda de fruto. Estamos vendo muito café no chão", afirmou.
Apesar dos contratempos, Teixeira ponderou que a safra de 2026 ainda entrega resultados razoáveis. "Não é uma supersafra, mas é uma boa safra", disse, acrescentando que a peneira do café e o rendimento seguem dentro da média histórica da cooperativa. O problema é que o El Niño não dá sinais de trégua: o agrometeorologista Marco Antonio dos Santos, da Rural Clima, projeta mais chuvas para as regiões Sul e Sudeste nos próximos 15 dias, o que pode intensificar tanto o atraso na colheita quanto a indução de novas floradas indesejadas em meados de agosto.
Reflexos para o mercado e para o agronegócio de MSO Brasil domina o mercado global de café arábica, e qualquer pressão sobre sua produção repercute diretamente nos preços internacionais da commodity — o que afeta desde grandes tradings até pequenos torrefadores. Para Mato Grosso do Sul, estado com vocação crescente no agronegócio e cuja economia está integrada às cadeias produtivas do Centro-Oeste e Sudeste, a instabilidade na cafeicultura nacional tem efeito indireto: pressiona a inflação de alimentos e bebidas, onera a cesta básica e pode alterar margens em toda a cadeia de distribuição.
O cenário climático desenhado pelo El Niño para os próximos meses coloca o setor cafeeiro brasileiro em alerta duplo: terminar a colheita de 2026 com o menor prejuízo possível enquanto tenta preservar as condições para que a florada principal de setembro garanta uma safra de 2027 minimamente competitiva. A janela para reverter o quadro é estreita, e depende, sobretudo, de uma virada climática que os modelos meteorológicos ainda não indicam com clareza.
Fontes: REUTERS, COOXUPÉ, UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS