Tensão no Mar Negro pressiona trigo e alerta importadores brasileiros

Contratos futuros do cereal recuaram em Chicago nesta quarta-feira, mas conflitos na rota de exportação russa mantêm risco de alta nos preços para o Brasil

Por

Divulgação

Os preços futuros do trigo negociados na Bolsa de Chicago (CBOT) registraram queda moderada nesta quarta-feira, 29, mas o mercado internacional segue em estado de alerta por causa das crescentes perturbações logísticas no Mar Negro — rota vital para as exportações de grãos da Rússia e da Ucrânia, dois dos principais fornecedores do Brasil. Para produtores, moinhos e a indústria alimentícia de Mato Grosso do Sul, o cenário pede atenção redobrada.

A queda dos contratos foi discreta — o vencimento setembro/2026 recuou 1,50 ponto, fechando a US$ 6,59 por bushel; o dezembro/2026 cedeu 2 pontos, a US$ 6,76; e o março/2027 terminou a US$ 6,91, com baixa de 2,25 pontos. O recuo reflete a pressão da ampla oferta global e o avanço da colheita no Hemisfério Norte. Mas o que está no radar dos operadores vai muito além dos números de fechamento.

Terminais russos restringem movimentação de grãos após ataques

Durante a semana, três dos principais terminais portuários da Rússia restringiram a entrada de caminhões carregados de grãos, citando elevação dos riscos para a navegação após ataques que afetaram embarcações e infraestrutura portuária. O corredor impactado é responsável por uma parcela expressiva das exportações russas de trigo — e qualquer gargalo nessa rota repercute diretamente nos mercados compradores, incluindo o Brasil.

A consultoria SovEcon apontou que os preços FOB do trigo russo da nova safra perderam força nos últimos dias. A razão: o aumento dos fretes no Mar Negro corroeu parte da competitividade do cereal russo no mercado internacional, encarecendo a commodity na ponta da compra. A mesma consultoria revisou para 1,6 milhão de toneladas sua projeção de exportações russas em julho — um número que o mercado global acompanha com lupa.

Brasil depende do exterior para abastecer a indústria do trigo

O Brasil não produz trigo suficiente para suprir a demanda interna e depende de importações para fechar o balanço de abastecimento. Argentina, Rússia e Ucrânia figuram entre os fornecedores mais relevantes — e qualquer instabilidade nos custos de exportação ou na disponibilidade desses países se traduz em pressão sobre o preço pago pela indústria nacional, dos moinhos aos fabricantes de massas e pães.

Para Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio movimenta bilhões anualmente e a cadeia de alimentos processados tem peso significativo na economia, a alta do trigo importado significa custos maiores para a indústria local e, no limite, preços mais altos ao consumidor. O estado também acompanha o desempenho da safra argentina — cujo volume produzido na próxima temporada será determinante para garantir o abastecimento brasileiro no segundo semestre do ano.

Oferta global ainda segura os preços, mas incerteza persiste

Apesar do componente geopolítico, analistas ponderam que o mercado ainda encontra dificuldade em sustentar altas mais expressivas. A disponibilidade mundial do cereal continua elevada, a colheita nos Estados Unidos avança e grandes exportadores seguem abastecendo o mercado, funcionando como contrapeso às tensões no Mar Negro.

O cenário, portanto, é de cabo de guerra: de um lado, a oferta global farta segura os preços; do outro, os riscos geopolíticos e logísticos criam um piso de suporte que impede quedas mais acentuadas. O equilíbrio frágil entre esses fatores deve continuar ditando o comportamento das cotações nas próximas semanas — e o Brasil, grande importador, permanece exposto a qualquer desequilíbrio que venha de Moscou, Kiev ou Buenos Aires.

Fontes: NOTÍCIAS AGRÍCOLAS, CBOT, SOVECON