Milho brasileiro pode superar 40 mi de toneladas exportadas com demanda da Espanha
Mesmo com colheita da segunda safra em plena atividade, preços do milho se sustentam acima do esperado, puxados pela forte procura externa
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A segunda safra de milho do Brasil já ultrapassou 60% de colheita, mas os preços do cereal contrariaram as apostas mais pessimistas do mercado e seguem firmes — em algumas regiões, até em recuperação. O movimento chama atenção especialmente para produtores e exportadores de Mato Grosso do Sul, estado que integra o corredor de escoamento para o Porto de Santos e que tem no milho uma das principais culturas da temporada. A explicação para esse comportamento incomum está na demanda externa, sobretudo europeia, que passou a ditar o ritmo das cotações com mais força do que a oferta disponível nos armazéns.
Em anos anteriores, o avanço da colheita da safrinha costumava pressionar os preços para baixo, em razão do aumento de oferta no mercado físico. Desta vez, o roteiro foi diferente: a demanda internacional absorveu o cereal com velocidade suficiente para sustentar as cotações e, em vários mercados, reverter rapidamente qualquer recuo. Esse novo equilíbrio reposicionou as exportações como a variável-chave para quem quer entender para onde vai o preço do milho nos próximos meses.
Espanha na linha de frente: 600 mil toneladas já nomeadas para julho e agostoRonaldo Fernandes, analista de mercado da Royal Rural, acompanha de perto o comportamento das nomeações nos portos e aponta a Espanha como o comprador que pode definir o tamanho total das exportações brasileiras nesta temporada. Segundo ele, o país europeu já tem cerca de 600 mil toneladas nomeadas entre julho e agosto — aproximadamente 300 mil toneladas por mês. O dado ganha peso quando comparado ao histórico: em julho de 2024, a Espanha embarcou 176 mil toneladas de milho brasileiro; em agosto do mesmo ano, o volume saltou para cerca de 630 mil toneladas. "Se agosto desse ano a Espanha levar mais que 600 mil toneladas, já pode deixar cravado escrito em pedra que a exportação total vai ser maior que 40 milhões de toneladas", afirmou Fernandes.
O analista também destaca que julho deve encerrar com embarques próximos de apenas 2 milhões de toneladas — abaixo do apetite real do mercado. A limitação não reflete falta de compradores, mas simplesmente a indisponibilidade do grão colhido a tempo de embarcar. "O Lineup mostrou que tinha apetite para pelo menos 3 milhões, para mais de 3 milhões de toneladas. Só que não vai tudo isso em julho porque não tinha esse milho colhido, então vai em agosto", explicou. Agosto já começa com 2,5 milhões de toneladas nomeadas para exportação, volume com tendência de crescimento ao longo das próximas semanas.
Preços no mercado físico resistem e B3 mira R$ 70 por saca em setembroMesmo diante de baixas registradas em Chicago e na B3 no início desta semana, o mercado físico nos portos brasileiros manteve cotações ao redor de R$ 66,00 por saca. Em Goiás, houve recuos pontuais com contratos chegando a R$ 48,00 por saca na boca da colheitadeira, mas os preços rapidamente retornaram à faixa de R$ 50,00. Para Fernandes, o mercado já trabalha com perspectiva de preços para setembro, não para o momento atual. "O mercado já está tentando colocar o preço do milho lá em setembro, não hoje", disse o analista, que avalia que o contrato setembro da B3 tem potencial de encerrar seu ciclo acima de R$ 70,00 por saca.
A competitividade do produto brasileiro no exterior é monitorada de perto. O milho nacional está cotado ao redor de US$ 220,00 por tonelada nos portos, ligeiramente acima do norte-americano, em torno de US$ 217,00, e do argentino, a aproximadamente US$ 212,00. Essa diferença de preço coloca o Brasil em posição de disputa direta com dois dos maiores exportadores globais do cereal, exigindo que a demanda europeia se mantenha aquecida para sustentar o patamar atual de cotações.
O que esse cenário significa para o produtor sul-mato-grossensePara Mato Grosso do Sul, o cenário tem implicações diretas. O estado é um dos principais produtores da segunda safra de milho do Centro-Oeste e integra o eixo de escoamento para o Porto de Santos — justamente o terminal que Fernandes aponta como termômetro do jogo exportador. "Quando começar a ganhar volume o Porto de Santos, aí sim o jogo de exportação já está acontecendo", afirmou o analista. O aumento das nomeações para Santos, portanto, é um sinal de que a disputa pelo milho entre o mercado interno e os compradores externos já se instalou — e deve se intensificar ao longo de agosto.
Para o produtor sul-mato-grossense, o recado prático é acompanhar diariamente os volumes no line-up dos portos e as nomeações destinadas à Espanha e demais compradores europeus. Fernandes é direto ao resumir o critério de análise: "Line-up e exportação que vai definir a tendência se o milho está barato ou se está caro." Se a demanda europeia continuar avançando, a valorização deve se estender tanto no mercado físico quanto nos contratos futuros. Caso o ritmo das compras externas desacelere, será necessário revisar as projeções — e as janelas de comercialização se estreitam.
Fontes: ROYAL RURAL, NOTICIAS AGRICOLAS