Bolovo com copa-lombo e morcilha vira vitrine do campo brasileiro

Petisco clássico dos botecos ganha versão sofisticada em SP com ovos caipiras e cortes suínos selecionados, unindo gastronomia e cadeia agropecuária.

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Um dos petiscos mais pedidos nos botecos do Brasil está se tornando, em versões mais elaboradas, uma espécie de cartão de visitas do agronegócio nacional. Em São Paulo, o chef Thiago Maeda desenvolveu um bolovo recheado com blend de copa-lombo e morcilha — ingrediente de origem europeia, feito a partir de sangue e miúdos suínos — que rapidamente se tornou o campeão de pedidos da casa e chamou atenção pelo respeito à cadeia produtiva de cada ingrediente utilizado.

A receita não é apenas uma novidade gastronômica. Ela atravessa ao menos três cadeias do agronegócio brasileiro: a suinocultura, a avicultura de postura e a triticultura. Num momento em que o Brasil consolida sua posição entre os maiores produtores e exportadores de proteína animal do mundo, ver esses insumos valorizados dentro de um petisco de boteco tem um significado que vai além do sabor.

A inspiração escocesa que voltou à moda nos bares brasileiros

O bolovo de Maeda se aproxima do chamado Scotch egg, preparo tradicional britânico em que o ovo cozido é envolto diretamente por carne, sem a massa de coxinha que caracteriza a versão mais popular no Brasil. "Nosso bolovo é feito com um blend de copa-lombo e morcilha. Foi o diferencial que encontramos quando o bolovo voltou à moda. Queríamos fazer uma receita diferente", explicou o chef. O ovo recebe apenas a camada de carnes, é coberto por uma massa leve de farinha de trigo, água e cerveja, empanado com farinha panko e finalizado na fritura — resultando em uma casquinha crocante que contrasta com a gema cremosa do interior.

A escolha pelo copa-lombo não é aleatória. O corte, retirado da região do pescoço e da paleta do suíno, é reconhecido pela maciez e pelo marmoreio equilibrado, características que o tornam ideal para envolver o ovo sem perder suculência durante o processo de fritura. Combinado à morcilha — cujo sabor mais intenso é suavizado pela mistura —, o resultado agradou até consumidores que nunca haviam experimentado o ingrediente. "Muita gente diz que não comeria morcilha. Mas, quando ela está misturada com a copa-lombo, o sabor fica mais suave. É uma forma de apresentar esse ingrediente para quem nunca experimentou", disse Maeda.

Ovos caipiras de Bastos e o cuidado com a origem dos insumos

Os ovos utilizados na receita vêm de Bastos (SP), município do interior paulista que figura entre os maiores polos de avicultura de postura do país. O processo exige precisão: cozidos por exatamente seis minutos e meio e resfriados antes de receberem a camada de carne, os ovos caipiras garantem a gema no ponto cremoso que é marca registrada do prato. "Usamos somente ovos caipiras. Eles são cozidos por seis minutos e meio e depois resfriados antes de receberem a camada de carne", detalhou o chef.

A rastreabilidade dos ingredientes é tratada como prioridade pela equipe. "As carnes são de boa procedência e fazemos questão de conhecer a origem dos produtos. Trabalhamos com fornecedores que garantem qualidade desde a produção", afirmou Maeda. Essa postura reflete uma tendência crescente na gastronomia urbana brasileira: o consumidor cada vez mais quer saber de onde vem o que come — e os produtores rurais que apostam em qualidade encontram nesse movimento um canal direto de valorização.

O que essa tendência representa para o agronegócio de MS

Mato Grosso do Sul tem razões concretas para acompanhar de perto essa valorização dos insumos suinícolas e avícolas nos cardápios urbanos. O estado figura entre os principais produtores de grãos do Brasil — incluindo o trigo, que aparece na massa e no empanamento do bolovo —, e a suinocultura sul-mato-grossense tem crescido de forma consistente, impulsionada por frigoríficos que operam em diferentes regiões do território estadual. A bovinocultura segue sendo o carro-chefe, mas a diversificação proteica vem avançando.

Receitas como a do chef Maeda funcionam como um espelho do que acontece dentro das propriedades rurais: quando o produtor aposta em padrão de qualidade — seja no ovo caipira, na procedência da carne suína ou no trigo usado no empanamento —, o resultado chega ao prato com identidade e agrega valor em toda a cadeia. O bolovo, nesse sentido, deixa de ser apenas um petisco e passa a contar uma história que começa no campo e termina no balcão do bar.

Fontes: CANAL RURAL