El Niño forte ameaça safra 2025/26 com risco de perda de 32 mi de toneladas
Pesquisador da FGV alerta que fenômeno climático já está instalado e pode reduzir em até 10% a produção nacional de grãos, afetando diretamente MS
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O agronegócio brasileiro entra na safra 2025/26 sob a sombra de um El Niño que, segundo modelos climáticos internacionais, tem mais de 90% de probabilidade de se classificar como forte ou superforte — e Mato Grosso do Sul, um dos maiores produtores de soja e milho do país, está diretamente na linha de exposição. A avaliação é do pesquisador Eduardo Assad, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que trabalha com dados climáticos aplicados à agricultura e alertou, em entrevista recente, que o fenômeno já está instalado — a dúvida agora é apenas sobre o tamanho do estrago.
O cenário é preocupante porque a safra que está sendo planejada para o ciclo 2025/26 projeta algo em torno de 320 milhões de toneladas de soja e milho combinados. Uma redução de 10% nesse volume significaria a eliminação de 32 milhões de toneladas — quantidade equivalente a meses inteiros de exportação do Brasil. E isso ocorre num momento em que o setor rural já enfrenta endividamento elevado e custos de produção pressionados.
O que os modelos climáticos mostram — e o que eles significam para o campoAssad explica que a diferença entre um El Niño "forte" e um "superforte" é medida pela anomalia na temperatura da superfície do Oceano Pacífico: eventos entre 1°C e 1,5°C acima da média já são classificados como fortes, enquanto os que ultrapassam 2°C entram na categoria superforte. Os dados da NOAA, agência climática dos Estados Unidos, e os modelos europeus apontam nessa direção de forma consistente. "Modelos da NOAA e europeus indicam mais de 90% de probabilidade de um episódio forte ou superforte", destacou o pesquisador ao detalhar o quadro para a agricultura nacional.
O histórico recente confirma a gravidade. Nos últimos dez anos, ao menos três episódios intensos do fenômeno afetaram a produção brasileira. O mais recente, na safra 2023/24, gerou perdas significativas em soja e milho — entre 7% e 10% —, puxadas principalmente pela seca no Norte, Nordeste e Sudeste. O Sul do país foi exceção, com excesso de chuva que chegou a elevar sua produção, mas o balanço geral foi negativo para o Brasil.
Tecnologia existe, mas adaptação ainda caminha devagarUm dos pontos mais críticos levantados por Assad é o descompasso entre o conhecimento disponível e sua aplicação real no campo. Segundo ele, as tecnologias capazes de reduzir perdas climáticas existem há mais de 35 anos — e incluem práticas como aprofundamento do sistema radicular, cobertura permanente do solo, plantio direto de qualidade e sistemas integrados como ILP (integração lavoura-pecuária) e ILPF (integração lavoura-pecuária-floresta). O problema é que essas estratégias exigem um planejamento de três a quatro anos, tempo que a maioria dos produtores não se deu nas últimas temporadas.
Os dados de campo revelam uma diferença brutal entre quem adotou e quem ignorou essas práticas: produtores que investiram em sistemas sustentáveis tiveram perdas de cerca de 15% durante eventos extremos recentes, enquanto os que mantiveram o modelo convencional viram suas produções recuar mais de 25%. Assad defende ainda o seguro rural como investimento obrigatório — não como custo — e aponta o Código Florestal como ferramenta subestimada de adaptação climática.
O que Mato Grosso do Sul pode esperar nesta safraPara Mato Grosso do Sul, o alerta tem peso especial. O estado é um dos pilares da produção de soja e milho do Centro-Oeste, e historicamente sente com intensidade os efeitos dos ciclos de El Niño, sobretudo com secas que comprometem o desenvolvimento das lavouras no início do ciclo vegetativo. A projeção de aumento de 1,5% na área plantada para a safra 2025/26, apontada por Assad, não seria suficiente para compensar eventuais perdas provocadas pelo fenômeno climático — o mesmo que aconteceu na temporada 2023/24.
O momento exige que produtores sul-mato-grossenses, técnicos agrícolas e gestores de política rural redobrem atenção ao monitoramento climático e ao planejamento de contingência. A janela para ajustes ainda está aberta, mas o relógio corre: as decisões de plantio para a safra de verão precisam ser tomadas nos próximos meses, e adiar a adaptação pode custar caro — literalmente.
Fontes: FGV, CANAL RURAL