Brasil exporta bilhões em grãos com menos de 1% de notificações fitossanitárias

Cadeia produtiva brasileira, incluindo produtores de MS, combina tecnologia e rastreabilidade para manter baixíssima taxa de rejeição na China

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O agronegócio brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com exportações recordes de US$ 87,1 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) — e um dado chama atenção: apesar do volume monumental de grãos embarcados para a China, as notificações fitossanitárias emitidas pelos chineses representaram menos de 1% do total de certificados emitidos para o mercado chinês entre maio de 2024 e maio de 2025, comprovando a robustez dos controles brasileiros desde a lavoura até o porto.

Esse desempenho não é fruto do acaso. Há uma engrenagem complexa funcionando em sintonia: produtores rurais que manejam lavouras com atenção às exigências fitossanitárias internacionais, armazéns que monitoram e limpam os grãos antes do embarque, e terminais portuários onde auditores do Vigiagro/MAPA emitem o Certificado Fitossanitário Internacional para cada lote. Para estados como Mato Grosso do Sul, grande produtor de soja e milho, o tema é diretamente ligado à competitividade de sua cadeia exportadora.

Menos de 1% de interceptações, mas atenção permanente ao risco

Entre os principais pontos de vigilância estão as chamadas pragas quarentenárias — organismos como plantas daninhas, insetos, fungos, bactérias, vírus e nematoides, capazes de causar danos econômicos nos países que recebem os grãos. A China, maior compradora de soja brasileira, regula atualmente 12 pragas quarentenárias presentes no Brasil, entre elas carrapicho, capim farpado, carpineira e quiabinho. Para uniformizar os procedimentos de controle, o MAPA formalizou recentemente uma lista oficial com esses organismos.

Os números concretos ajudam a dimensionar o cenário: no período analisado, as autoridades chinesas emitiram 1.046 notificações em carregamentos de soja e 39 em carregamentos de milho — volumes expressivos em valor absoluto, mas irrisórios frente ao montante exportado. "Esses números demonstram que o sistema brasileiro de produção e controle fitossanitário é robusto. As notificações existem e precisam ser tratadas com seriedade, mas representam uma parcela muito pequena diante do volume exportado pelo país", afirmou Fátima Parizzi, consultora técnica da ABIOVE e da ANEC.

Da fazenda ao navio: uma cadeia de controles integrados

A baixa incidência de problemas tem explicação técnica. O processo de controle começa antes mesmo da colheita, com o manejo fitossanitário nas propriedades rurais. Em seguida, os armazéns recebem os grãos, realizam monitoramento, limpeza e separação de resíduos. Nos terminais de exportação, equipes especializadas executam a classificação e a inspeção higiênico-sanitária, com os auditores fiscais federais do MAPA como última barreira antes do embarque.

Um dos desafios centrais, segundo Parizzi, é garantir que a amostra coletada de um lote de grande volume seja verdadeiramente representativa da carga. "O grande desafio é assegurar que a amostra coletada represente fielmente o lote exportado, permitindo identificar eventuais não conformidades antes do embarque", explicou a consultora, que também alertou para as consequências de uma interceptação no destino: alteração de rota de navios, atrasos logísticos, custos adicionais e impactos contratuais — motivações mais do que suficientes para manter os programas de prevenção sempre ativos.

Tecnologia e inteligência de dados como próxima fronteira

Para além dos protocolos já consolidados, o setor exportador vem testando equipamentos automáticos de classificação de grãos, capazes de identificar impurezas, materiais estranhos e sementes de plantas daninhas com maior precisão e velocidade. A automação, porém, é apenas parte da equação. "Mais importante do que gerar dados é transformá-los em conhecimento para aperfeiçoar continuamente os processos. O setor tem investido fortemente em tecnologia da informação, rastreabilidade e inteligência de dados para aprimorar os controles sobre os estoques armazenados e exportados", destacou Parizzi.

O tema será aprofundado na IX Conferência Brasileira de Pós-Colheita (IX CBP 2026), promovida pela ABRAPOS e organizada pelas cooperativas Capal, Frísia e Castrolanda. O evento reunirá especialistas para debater os desafios na identificação de sementes tóxicas e pragas quarentenárias em todas as etapas da cadeia — do recebimento à expedição. Para o agronegócio sul-mato-grossense, que tem na China um de seus principais destinos de exportação de soja e milho, acompanhar esses avanços não é opcional: é condição para manter espaço num mercado cada vez mais exigente.

Fontes: MAPA, ABIOVE, ANEC, ABRAPOS