Soja firme: dólar, Chicago e demanda aquecida sustentam preços no Brasil

Apesar do cenário favorável às cotações, produtores seguem segurando estoques e limitando a oferta disponível no mercado brasileiro nesta quinta-feira.

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O mercado brasileiro de soja encerrou a quinta-feira, 23 de julho de 2026, com cotações sustentadas por uma combinação de fatores externos que favorece o produtor — mas os negócios seguiram travados pela postura retraída de quem tem a mercadoria em mãos. A alta nos contratos futuros da Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), a valorização do dólar e prêmios fortalecidos nos portos criaram um piso firme para os preços, sem, no entanto, destravar volumes significativos de venda.

Para os produtores de Mato Grosso do Sul, um dos estados mais relevantes na produção nacional de soja, o cenário atual reacende o debate sobre o melhor momento de comercializar os grãos da última safra. Com estoques ainda em mãos e os preços reagindo positivamente, a decisão de esperar — ou vender agora — ganha peso estratégico.

Produtor segura a soja enquanto cotações sobem

"O produtor continua segurando a soja, restringindo a oferta disponível no mercado", avaliou Rafael Silveira, analista da Safras & Mercado. Segundo ele, mesmo com compradores elevando suas ofertas para competir com os portos, a disponibilidade de grãos permanece limitada — o que, paradoxalmente, ajuda a manter os preços firmes diante da disputa pelos lotes disponíveis.

Nos principais portos de exportação do país, os preços da saca refletiram esse equilíbrio tenso entre oferta restrita e demanda aquecida. Em Paranaguá (PR), a saca foi mantida em R$ 147,00, enquanto em Rio Grande (RS) houve alta de R$ 147,00 para R$ 148,00 — sinal de que a pressão compradora começa a se manifestar de forma mais clara nos pontos de escoamento.

Chicago sobe puxada por petróleo, clima e demanda dos EUA

O combustível externo para os preços veio de múltiplas frentes. Em Chicago, os contratos de soja para agosto fecharam com alta de 4,50 centavos de dólar (0,36%), a US$ 12,37 por bushel, enquanto o vencimento de novembro avançou para US$ 12,43. O movimento foi alimentado pela forte valorização do petróleo, que voltou a superar US$ 100 por barril em Londres após alta superior a 8% — tensões renovadas no Oriente Médio estão por trás do salto.

A conexão entre petróleo e soja passa pelo biodiesel: quando o óleo combustível sobe, o óleo vegetal ganha atratividade como substituto, e toda a cadeia da oleaginosa se beneficia. Some-se a isso a boa demanda pela soja norte-americana — exportadores dos EUA registraram venda de 126 mil toneladas para destinos não revelados — e as preocupações climáticas com o tempo seco em regiões produtoras americanas, e o quadro de sustentação das cotações fica mais claro. Realizações de lucros e vendas técnicas chegaram a limitar o avanço, mas não reverteram a tendência positiva do dia.

Dólar valorizado amplia competitividade do produtor brasileiro

No câmbio, o dólar comercial fechou com valorização de 0,62%, cotado a R$ 5,0838 para venda — um nível que, embora longe dos picos históricos, representa vantagem adicional para quem exporta em moeda estrangeira e recebe em reais. Ao longo do pregão, a moeda norte-americana oscilou entre R$ 5,0698 e R$ 5,0923.

Para o produtor sul-mato-grossense, que tem boa parte dos custos atrelados ao real, o câmbio favorável funciona como um colchão extra de rentabilidade — o que também ajuda a explicar a postura de cautela na venda: com os preços em trajetória de alta e o dólar contribuindo, esperar pode fazer sentido financeiro, desde que o produtor tenha fôlego de caixa para suportar os custos do armazenamento.

O mercado de soja deve seguir atento às exportações norte-americanas nas próximas semanas. As vendas líquidas dos EUA para a safra 2025/26 somaram 56,4 mil toneladas na semana encerrada em 16 de julho, enquanto para 2026/27 o volume já alcança 1,537 milhão de toneladas — dentro da faixa esperada pelo mercado, o que sinaliza continuidade da demanda global e pode manter o patamar atual de preços por mais tempo.

Fontes: SAFRAS & MERCADO, USDA, CBOT