O mercado físico do boi gordo encerrou a semana de 23 de julho em alta generalizada no Brasil, impulsionado por uma combinação de fatores que vai das férias coletivas nos frigoríficos às ameaças tarifárias dos Estados Unidos — e Mato Grosso do Sul, um dos maiores estados produtores do país, acompanha essa escalada com atenção redobrada. A dificuldade das indústrias em montar suas escalas de abate segue como o principal combustível para a valorização da arroba.
O cenário reflete um equilíbrio delicado entre oferta restrita de animais prontos para o abate e uma demanda externa que, ao mesmo tempo em que sustenta os preços, começa a dar sinais de limite. Para os produtores sul-mato-grossenses, a notícia é de valorização do produto, mas o horizonte de curto prazo traz incertezas relevantes que merecem atenção.
A programação das indústrias frigoríficas está operando com folga mínima: entre quatro e sete dias úteis na média nacional, segundo levantamento da consultoria Safras & Mercado. O analista Fernando Henrique Iglesias aponta que a disseminação das férias coletivas em diferentes estados ao longo desta semana agravou ainda mais a capacidade de composição das escalas. Com menos abate disponível, o gado em pé ganha valor automaticamente.
No mercado futuro, a sessão de quinta-feira trouxe mais um elemento de volatilidade: a perspectiva de tarifação de 12,5% que os Estados Unidos devem impor a uma série de países, pacote que tende a incluir a carne bovina brasileira. A medida ainda não está concretizada, mas já provoca ajustes nas projeções de exportação e adiciona incerteza ao planejamento das tradings e dos próprios frigoríficos.
Se a ameaça norte-americana pesa sobre o futuro, o presente já traz sua própria tensão: o esgotamento precoce das cotas de exportação concedidas pelo mercado chinês ao Brasil. Iglesias destaca que o setor acompanha de perto esse movimento, uma vez que a China é o principal destino da carne bovina nacional e qualquer interrupção no fluxo de embarques afeta diretamente os preços pagos ao produtor. O consumo das cotas antes do prazo esperado indica aquecimento da demanda chinesa, o que é positivo, mas também sinaliza que o Brasil pode ficar sem margem para novos negócios até a renovação dos volumes.
Para Mato Grosso do Sul — que concentra parte expressiva do rebanho nacional e abriga algumas das maiores plantas frigoríficas do país — a combinação entre valorização do boi e limitações de exportação cria um cenário dual: o produtor recebe mais pela arroba agora, mas a indústria precisa repassar custos ao atacado, o que começa a encontrar resistência no consumidor final.
No mercado atacadista, a tentativa de recomposição de margens pelos frigoríficos já é perceptível. A indústria busca reajustar os preços da carne processada para acompanhar a alta da matéria-prima, mas esbarra em uma demanda doméstica que não tem fôlego para absorver aumentos contínuos. "A demanda doméstica apresenta evidentes limitações para absorver altas ainda mais expressivas da carne bovina, ainda mais em um ambiente de preços altamente competitivos das proteínas concorrentes, em especial da carne de frango, que tende a receber a predileção entre as classes C, D e E", avalia Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado.
O frango, que também é produzido em escala relevante no Centro-Oeste, torna-se o principal concorrente do boi nas gôndolas. Com preços mais acessíveis, a proteína de ave acaba absorvendo parte da demanda que migraria para o bovino em condições normais — o que cria um teto natural para até onde a carne bovina pode subir sem perder fatia de mercado interno. Para o produtor de MS acostumado a depender do mercado externo como válvula de escape para os excedentes, o cenário pede atenção ao calendário de cotas e ao desfecho das negociações tarifárias com Washington.
A convergência de pressões externas e internas sugere que o patamar atual de preços pode ser sustentado no curto prazo, mas com volatilidade crescente conforme as definições sobre tarifas e cotas se aproximam. O produtor sul-mato-grossense que já garantiu contratos a termo sai em vantagem; quem ainda tem animais para colocar no mercado nas próximas semanas precisa acompanhar de perto os sinais da indústria.
Fontes: SAFRAS & MERCADO, CANAL RURAL