A safra brasileira 2026/27 deve ser marcada por uma reconfiguração relevante do campo: a soja caminha para ocupar quase 49,1 milhões de hectares no país, o algodão ganha espaço com a recuperação das cotações internacionais e o feijão amplia área em mais de 5% — enquanto o trigo pode perder um quinto de sua área cultivada, e o arroz e o milho de verão também devem encolher. O diagnóstico vem da consultoria Safras & Mercado, que mapeou a intenção de plantio dos produtores brasileiros para a próxima temporada, apontando como custos de produção elevados, acesso restrito ao crédito e incertezas climáticas estão redesenhando as apostas do agronegócio.
Para o produtor de Mato Grosso do Sul, o cenário exige atenção redobrada. O estado é um dos grandes pilares da agricultura nacional, com destaque para soja, milho safrinha e algodão — exatamente as culturas que mais concentram volatilidade nas projeções para 2026/27. A combinação de margens apertadas e clima imprevisível tende a definir, nas próximas semanas, quais culturas ganharão espaço e quais serão preteridas nas decisões de plantio.
A oleaginosa continua sendo a principal aposta dos produtores. A Safras & Mercado estima crescimento de 1,2% na área nacional, chegando a 49,107 milhões de hectares — com a expansão concentrada principalmente no Centro-Oeste, onde Mato Grosso lidera o avanço. A produção potencial foi calculada em 180,089 milhões de toneladas, mas com um asterisco importante: a projeção só se sustenta se as condições climáticas permanecerem favoráveis durante o ciclo da cultura.
A soja ainda se beneficia da retração do milho de verão. Com a oleaginosa oferecendo melhor rentabilidade relativa e menor dificuldade de crédito, parte dos produtores que historicamente optavam pelo milho na primeira safra tende a migrar para a leguminosa. A área de milho de verão no Centro-Sul deve recuar 1,3%, enquanto a segunda safra — o chamado milho safrinha, carro-chefe do calendário em MS — cresce 0,3%, elevando a produção nacional potencial para 144,956 milhões de toneladas.
O trigo concentra o maior pessimismo do levantamento. A queda projetada é de 20% na área plantada, que recuaria para apenas 1,905 milhão de hectares — reflexo de uma combinação difícil: custos de produção em alta, piora na relação de troca e crédito escasso. A produção potencial foi estimada em 5,855 milhões de toneladas. A cultura, que já enfrenta concorrência do produto importado, vê produtores optando por culturas com margens mais previsíveis.
O feijão apresenta um paradoxo interessante: a área cultivada deve crescer 5,36%, chegando a 2,656 milhões de hectares, mas a produção pode cair 3,55%. A razão está na menor produtividade esperada — riscos climáticos e investimento reduzido em tecnologia devem comprometer o rendimento por hectare. Já o arroz segue na direção contrária: redução de 5% na área, para 1,429 milhão de hectares, com produção estimada em 9,95 milhões de toneladas, reflexo da cautela dos produtores diante de custos elevados e incerteza no tempo.
Entre os destaques positivos do levantamento, o algodão chama atenção com expansão de 2,5% na área plantada, alcançando 2,05 milhões de hectares. A melhora da rentabilidade, impulsionada pela recuperação das cotações internacionais, reacende o interesse dos produtores — especialmente na Bahia, maior produtor nacional, mas também em regiões do Centro-Oeste onde a pluma compete por espaço com a soja.
Para Mato Grosso do Sul, o cenário geral da safra 2026/27 reforça a dependência estrutural da soja e do milho safrinha como pilares econômicos. A retração do milho de verão e a estabilidade da segunda safra sugerem que o estado deverá manter seu perfil produtivo, mas com pressão sobre as margens. O crédito rural e a evolução do clima nos próximos meses serão os principais fatores a determinar se as intenções de plantio se convertem em área efetivamente semeada — e se as projeções de produção se sustentam até a colheita.
Fontes: SAFRAS & MERCADO, CANAL RURAL