Os futuros de minério de ferro encerraram a semana em alta pelo segundo pregão consecutivo nesta sexta-feira, 17 de julho, sustentados pela queda nos estoques armazenados nos principais portos da China — um sinal de que a demanda do maior consumidor mundial da commodity segue firme, mesmo diante de uma oferta crescente no horizonte de médio prazo.
O cenário interessa de perto ao agronegócio de Mato Grosso do Sul, onde o desempenho da economia chinesa dita o ritmo das exportações de soja, milho e carne bovina — e onde qualquer movimento de recuperação da indústria do aço em Pequim pode fortalecer ainda mais o apetite por produtos primários brasileiros.
Os depósitos de minério de ferro nos principais terminais portuários da China recuaram 1,22% em relação à semana anterior, atingindo 156,6 milhões de toneladas, conforme levantamento da consultoria Steelhome. Esse declínio nos estoques é interpretado pelo mercado como um indício de que as siderúrgicas estão consumindo o produto em ritmo acelerado, sem repor os lotes na mesma velocidade.
Na Bolsa de Mercadorias de Dalian (DCE), o contrato mais negociado com entrega em setembro avançou 0,53%, fechando a 762 iuanes — equivalente a aproximadamente US$ 112,53 por tonelada. No acumulado semanal, a valorização chegou a 1,74%. Já na Bolsa de Cingapura, o contrato de referência para agosto subiu 0,1%, a US$ 100,20 por tonelada, com alta semanal de 0,83%. Analistas da Shanghai Metals Market destacaram em nota que "a tendência de redução dos estoques indica que a demanda geral por minério de ferro continua resiliente" — o que reforça a leitura de que o setor siderúrgico chinês ainda não entrou em desaceleração.
Os dados também mostram que o consumo aparente dos principais produtos siderúrgicos chineses cresceu 0,9% na comparação semanal, segundo a consultoria Mysteel — dado que corrobora a leitura de demanda estável. Ainda assim, o mercado evitou uma alta mais expressiva diante do anúncio de expansão de capacidade por parte da mineradora australiana BHP.
A companhia aprovou um aporte de US$ 900 milhões para desenvolver a jazida de alto teor Ministers North, localizada na Austrália Ocidental. As obras devem começar ainda neste mês de julho, com a primeira produção prevista para o ano fiscal de 2029. O investimento sinaliza que a oferta global do minério seguirá robusta nos próximos anos, o que tende a limitar eventuais disparadas de preço mesmo em cenários de demanda aquecida.
A trajetória do minério de ferro funciona como um termômetro indireto para o agronegócio sul-mato-grossense. Quando a China compra mais minério e produz mais aço, a economia do país aquece — e isso se reflete diretamente no poder de compra de commodities agrícolas como a soja e o milho produzidos em Mato Grosso do Sul, que em 2024 exportou mais de R$ 20 bilhões em produtos do agronegócio, com a China como principal destino.
A estabilidade relativa dos estoques — ainda que em queda — também sugere que Pequim não está acelerando compras de forma emergencial, o que indica um cenário de normalidade operacional nas siderúrgicas, sem sinais de colapso nem de boom artificial. Para os produtores e exportadores de MS, o cenário é de cautela positiva: demanda sustentada, mas sem garantia de alta brusca nos preços das matérias-primas que chegam à China em navios carregados de grãos brasileiros.
Com a BHP expandindo capacidade e outras mineradoras globais também investindo em novos projetos, a pressão sobre os preços do minério deve persistir no médio prazo — e o impacto dessa equação se sentirá nos escritórios das tradings de Campo Grande e Dourados tão logo os números do segundo semestre de 2025 comecem a se consolidar.
Fontes: REUTERS, STEELHOME, MYSTEEL, SHANGHAI METALS MARKET