Supermercados avançam no setor farmacêutico após nova lei federal
Legislação permite instalação de farmácias dentro de lojas e abre disputa bilionária com redes tradicionais
A sanção da Lei nº 15.357, em março de 2026, abriu caminho para uma mudança significativa no varejo brasileiro: a entrada oficial dos supermercados no mercado farmacêutico.
A nova regra autoriza a instalação de farmácias e drogarias dentro de estabelecimentos de grande porte, desde que respeitadas exigências sanitárias e técnicas, e já vem acelerando a movimentação de grandes redes no país.
Na prática, a legislação não libera a venda indiscriminada de medicamentos nas prateleiras comuns dos supermercados, como se fossem produtos de consumo cotidiano.
Pelo contrário, exige que os remédios sejam comercializados em um espaço exclusivo, separado do restante da loja e operando sob as mesmas normas de uma farmácia tradicional.
Entre as principais regras estabelecidas pela lei estão a obrigatoriedade de presença de farmacêutico durante todo o horário de funcionamento, o controle rigoroso na venda de medicamentos — especialmente os sujeitos a receita — e a proibição de exposição de remédios em gôndolas abertas ou misturados a outros produtos.
Expansão acelerada das redes
Com a regulamentação, grandes grupos do varejo alimentar já começaram a se movimentar para ocupar esse novo espaço de mercado.
Redes como Assaí Atacadista e Cencosud anunciaram planos de expansão com a criação de unidades piloto de farmácias dentro de seus estabelecimentos, em um modelo conhecido como “store in store” — quando um serviço funciona como um departamento dentro da loja.
No caso do Assaí, a expectativa é abrir cerca de 25 unidades ainda em 2026, com potencial de expansão para centenas de lojas no futuro.
A estratégia aproveita o grande fluxo de consumidores nos supermercados para ampliar vendas e diluir custos operacionais, como estrutura física e logística.
Especialistas apontam que o movimento inaugura uma disputa bilionária entre supermercados e redes de farmácias, ao integrar produtos de saúde ao cotidiano das compras.
A tendência segue modelos já consolidados em países como Estados Unidos e integrantes da União Europeia, onde farmácias em supermercados fazem parte da rotina dos consumidores.
O que muda para o consumidor
Para o consumidor, a principal mudança é o aumento da conveniência.
A possibilidade de adquirir medicamentos no mesmo local onde se compram alimentos e itens de uso diário tende a facilitar o acesso, especialmente em regiões onde há menor oferta de farmácias.
Além disso, a ampliação dos pontos de venda pode estimular a concorrência e, potencialmente, impactar preços e serviços no setor.
No entanto, especialistas ressaltam que os medicamentos continuam sendo tratados como produtos de saúde, e não como mercadorias comuns, o que garante a manutenção de regras rígidas de controle e segurança.
Resistência e desafios
Apesar do avanço, a entrada dos supermercados nesse mercado também gera preocupação entre entidades do setor farmacêutico.
Representantes de farmácias defendem que a venda de medicamentos exige cuidado técnico e acompanhamento profissional, temendo que a expansão possa levar à banalização do uso de remédios.
Outro desafio está na operacionalização do modelo. A exigência de estrutura adequada, profissionais habilitados e conformidade com normas da Anvisa pode representar barreiras de entrada, especialmente para redes menores ou em regiões afastadas dos grandes centros.
Novo cenário do varejo
A nova legislação marca uma transformação estrutural no varejo brasileiro, aproximando os supermercados do setor de saúde e criando um modelo híbrido que mistura consumo e atendimento farmacêutico.
Ao permitir a instalação de farmácias nesses espaços, o governo busca ampliar o acesso da população a medicamentos, sem abrir mão das normas de segurança sanitária.
Com isso, o país passa a acompanhar uma tendência global, em que grandes centros de compras incorporam serviços de saúde como parte da experiência do consumidor.
Nos próximos anos, a evolução desse modelo deve redefinir a dinâmica entre supermercados, farmácias e consumidores, consolidando um novo capítulo no mercado brasileiro.