Mais de 200 empresas brasileiras migram para o Paraguai em busca de custos menores

Regime de maquila atrai indústrias com baixa tributação, flexibilização trabalhista e redução de até 40% nos custos operacionais

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O Paraguai tem se consolidado como um dos principais destinos da indústria brasileira nos últimos anos. Mais de 200 empresas do Brasil já transferiram parte de suas operações para o país vizinho desde 2007, impulsionadas principalmente pela Lei de Maquila — um regime especial que oferece condições altamente competitivas para produção voltada à exportação. 

Entre os exemplos mais conhecidos estão companhias como Lupo e Riachuelo, que passaram a instalar unidades no território paraguaio como estratégia para reduzir custos e ampliar competitividade.

Incentivos fiscais e ambiente favorável

O principal atrativo do modelo paraguaio é a carga tributária extremamente reduzida.

Pela Lei de Maquila, empresas podem importar máquinas, insumos e matérias-primas praticamente sem impostos e pagar apenas cerca de 1% sobre o valor agregado do produto final destinado à exportação. 

Esse ambiente contrasta fortemente com o brasileiro. Enquanto a carga tributária no Brasil gira em torno de 30% a 35% da economia — podendo ser ainda maior dependendo do setor —, no Paraguai as empresas operam com uma estrutura mais simples e menor peso fiscal. 

O resultado é direto no caixa das indústrias: empresas relatam redução de até 40% nos custos operacionais ao transferirem parte da produção para o país vizinho.

Domínio brasileiro no modelo

O avanço da indústria brasileira no Paraguai é tão significativo que já representa a maioria das operações no regime de maquila. Atualmente, cerca de 69% das empresas instaladas nesse sistema são originárias do Brasil, consolidando o país como o principal investidor no setor industrial paraguaio. 

Esse movimento transformou regiões de fronteira, como Ciudad del Este e Alto Paraná, em polos industriais ligados diretamente à economia brasileira, com cadeias produtivas integradas e grande parte da produção voltando ao próprio mercado do Brasil.

Mão de obra mais barata e regras flexíveis

Outro fator determinante para a migração é o custo do trabalho. Contratar um funcionário formal no Paraguai pode ser entre 30% e 40% mais barato do que no Brasil, segundo dados do setor. 

Isso se deve, em grande parte, às diferenças na legislação trabalhista. No Paraguai, não há encargos como o FGTS, a jornada semanal pode chegar a 48 horas, e benefícios trabalhistas são mais restritos em comparação ao modelo brasileiro. 

Essa combinação reduz significativamente o custo da folha de pagamento e aumenta a previsibilidade para os empresários, tornando o ambiente mais atraente para a instalação de fábricas.

Energia barata e logística estratégica

Além dos fatores fiscais e trabalhistas, o Paraguai também ganha competitividade pelo custo reduzido de energia elétrica — impulsionado principalmente pela produção hidrelétrica de Itaipu — e pela localização estratégica no Mercosul. 

Isso permite que empresas produzam com menor custo e exportem para o Brasil e outros países da região com vantagens logísticas e, em muitos casos, sem tarifas de importação, graças aos acordos comerciais do bloco. 

Impacto econômico nos dois países

O avanço da maquila tem contribuído para a transformação econômica do Paraguai, que vem registrando crescimento médio do PIB em torno de 4% ao ano, acima da média de vários países latino-americanos.

Esse desempenho é sustentado, em parte, pela industrialização acelerada e pela atração de investimentos estrangeiros.

Por outro lado, o fenômeno acende alertas no Brasil. Especialistas apontam que a transferência de fábricas pode resultar em perda de arrecadação e empregos industriais, além de enfraquecer cadeias produtivas locais. 

Estima-se que milhares de empregos diretos já tenham sido gerados no Paraguai por empresas brasileiras, enquanto outros postos deixam de ser criados ou são deslocados do lado brasileiro da fronteira. 

Tendência deve continuar

O movimento de migração industrial é visto por analistas como uma tendência estrutural. Com o chamado “Custo Brasil” ainda elevado — combinando alta carga tributária, burocracia e encargos trabalhistas —, o Paraguai segue se posicionando como uma alternativa competitiva para produção regional. 

A expansão recente do regime de maquila para setores como tecnologia e serviços também indica que o fenômeno pode ir além da indústria tradicional nos próximos anos.