A missão do Senado Federal brasileiro, composta por oito senadores, concluiu reuniões em Washington sobre a tarifa de 50% a ser aplicada aos produtos do Brasil a partir de agosto. Embora tenham avançado no diálogo com autoridades e empresários americanos, os senadores expressaram preocupações sobre sanções econômicas em relação à Rússia. A missão não buscou a remoção da tarifa, mas trabalhou para reestabelecer a diplomacia parlamentar e fortalecer relações bilaterais. Entre os temas abordados, esteve a dependência brasileira de fertilizantes, que pode ser afetada por futuras legislações no Congresso dos EUA.
A missão oficial do Senado Federal, criada para dialogar com autoridades dos Estados Unidos sobre a tarifa de 50% que deve incidir sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto, concluiu nesta quarta-feira (30) os três dias de reuniões em Washington. A comitiva, formada por oito senadores, relatou ter obtido avanços no diálogo com congressistas e empresários americanos, embora retorne ao Brasil com preocupações sobre eventuais sanções econômicas ligadas ao comércio com a Rússia.
Durante os encontros realizados na terça-feira (29), os parlamentares se reuniram com nove congressistas norte-americanos — oito democratas e um republicano —, além de empresários. Na segunda-feira, os senadores também participaram de reuniões com representantes do setor privado.
Entre os parlamentares norte-americanos que receberam a comitiva brasileira estão os senadores democratas Tim Kaine, Ed Markey, Mark Kelly, Chris Coons, Jeanne Shaheen, Martin Heinrich, e o republicano Thom Tillis, além da deputada Sydney Kamlager-Dove, co-presidente do Brazil Caucus. Os senadores brasileiros apresentaram os impactos que a medida tarifária traria aos estados representados por esses congressistas.
Coordenador da missão e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) explicou que a função da comitiva não era negociar a retirada da tarifa — prerrogativa dos Executivos —, mas sim sensibilizar os interlocutores americanos.
“A gente veio para fazer a diplomacia parlamentar que estava fria. Conseguimos reaquecer, distensionar a relação e conseguimos passar para eles a necessidade de manter esse canal de diálogo diante do caminho que vamos ter pela frente. De concreto levamos para o Brasil, em relação a nossa prerrogativa, abrir canais, abrir caminhos para que essa relação pudesse ser azeitada e com isso facilitar na frente novas tratativas de diálogo”, disse.
O senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, reforçou a disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para dialogar com o presidente dos Estados Unidos, desde que com respeito mútuo.
“Só não vou dizer que a gente pode debater a questão do Judiciário, porque em nosso país, as coisas são independentes. A gente pode até conversar, mas a gente não manda no Judiciário. Por mim, a possibilidade [de diálogo] está aberta, não tenho nenhum problema de dizer isso em nome do presidente Lula. É só organizar”, afirmou.
As tensões comerciais se intensificaram após o ex-presidente Donald Trump anunciar, no dia 9 de julho, a aplicação da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Segundo ele, a medida seria uma resposta à suposta perseguição judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-presidente Jair Bolsonaro, réu em processos relacionados à tentativa de golpe de Estado.
O senador Esperidião Amin (PP-SC) destacou que a missão não tinha o objetivo de negociar a retirada da tarifa, mas sim promover o fortalecimento das relações institucionais entre os países.
“Viemos aqui azeitar a democracia parlamentar. Tivemos a oportunidade de ouvir aulas sobre o que pensam sobre o Brasil. Alguns bem informados e outros desinformados. (...) O nosso clamor para que haja prorrogação desse prazo, que é absurdo, ganhou eco em todos. Anunciar uma sobretarifa para vigorar em 20 dias é realmente não querer negociação. E estamos aqui para pedir negociação.”
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) avaliou como produtiva a viagem e mencionou que a comitiva foi procurada por empresários preocupados com os impactos da tarifa, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Ela informou que os senadores elaborarão um relatório da missão e seguirão dialogando com o governo federal.
“Senadores democratas e republicanos tocaram nesse assunto. Eles estão preocupados em acabar com a guerra [entre Rússia e Ucrânia] e acham que quem compra da Rússia dá munição para que a Rússia tenha recursos para continuar a guerra. Tanto é que estão tentando fazer uma lei.”
Uma das principais preocupações do grupo foi a sinalização de que o Congresso dos EUA poderá aprovar, em até 90 dias, uma legislação para punir países que mantêm relações comerciais com a Rússia. O senador Carlos Viana (Podemos-MG) reforçou o alerta:
“A política externa brasileira está sendo avisada de que há algo que poderá nos atingir com muito mais força nos próximos 90 dias. Houve por parte de alguns senadores a possibilidade de que o Brasil possa apresentar razões, com relação por exemplo aos fertilizantes e a lei ter alguns pontos que permitam esse tipo de comércio.”
Jaques Wagner também comentou a dependência brasileira em relação à importação de fertilizantes: “Fertilizantes faltam no mundo inteiro. Ninguém faz o que quer, faz o que precisa. Não tem como deixar de comprar, só se for para parar o agronegócio. Também o negócio do combustível, quem compra não é o governo brasileiro. Quem compra são empresas para revender no mercado interno.”
A senadora Tereza Cristina concluiu dizendo que o tema da compra de óleo e fertilizantes da Rússia deverá constar no relatório da missão, dada a insistência dos parlamentares e empresários americanos no assunto.