Usinas de cana miram milho em MS para rodar na entressafra

Aplus fecha contratos para converter usinas em plantas híbridas; investimento em unidade nova de milho custa R$ 900 milhões

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Tom Fisk/Pexels

Usinas de etanol de cana-de-açúcar do país começam a apostar em um modelo híbrido: produzir também etanol de milho durante a entressafra da cana, período em que as moendas ficam paradas. A Aplus, empresa de engenharia especializada em biocombustíveis, mantém dois contratos em andamento, com os grupos Atvos e Aroeira, e outros cinco em negociação na região Sudeste, segundo informou nesta terça-feira, 29 de setembro de 2026, o sócio-fundador e diretor comercial da empresa, Alessandro Salvador.

A lógica do negócio é simples: cana só é moída na safra, porque não pode ficar estocada, enquanto o milho é um grão armazenável e permite que a planta industrial funcione o ano inteiro. Com isso, a usina aproveita a mesma estrutura de laboratórios, administração e armazenamento que já tinha para a cana, e ainda soma novas fontes de receita, como o DDG (resíduo usado em ração animal) e o óleo de milho.

Investimento menor atrai grupos como Cerradinho e São Martinho

Segundo Salvador, o custo de erguer uma usina de milho do zero, ao lado de uma planta de cana já existente, é bem menor do que abrir uma unidade nova completa. Ele cita o caso de um cliente que construiu uma usina de etanol de cana por cerca de R$ 1,4 bilhão e, na sequência, uma planta de milho ao lado por aproximadamente R$ 900 milhões. Empresas como Cerradinho, São Martinho e Coprodia já adotam esse modelo híbrido.

"É uma diferença bastante significativa, que permite o melhor aproveitamento da infraestrutura administrativa, abre novas fontes de receita, com subprodutos como o DDG e o óleo de milho, e garante uma receita mais estável ao longo do ano, com maior rentabilidade", afirma Salvador. O contrato da Aplus com a Aroeira prevê o projeto de engenharia completo da nova usina de milho, das obras civis à planta industrial, enquanto o trabalho com a Atvos envolve uma unidade que será construída ao lado da estrutura já existente.

MS já é destino de quase 21% da safra nacional de milho para etanol

O movimento de usinas híbridas reforça um cenário em que Mato Grosso do Sul se consolidou como polo do etanol de milho no país. O estado responde por parte relevante do processamento do grão para biocombustível: as usinas de etanol de milho já compram 20,9% da safra nacional a partir de MS, segundo levantamento do setor. A estrutura de apoio a essa cadeia inclui também a produção florestal: o estado soma 1,98 milhão de hectares de eucalipto que abastecem o etanol de milho, usado como fonte de energia nas usinas.

O interesse de grupos sucroalcooleiros em replicar o modelo híbrido no Centro-Oeste tende a esbarrar justamente na experiência já consolidada de Mato Grosso do Sul, que reúne infraestrutura logística, oferta de milho e cadeia de biomassa florestal para sustentar esse tipo de operação em larga escala.