Usinas bebem metade do milho de MS: R$ 1,9 bi em projetos mudam o agro

Estudo da Aprosoja/MS mostra que três plantas já processam entre 4,8 e 5,3 milhões de toneladas por safra — e mais três projetos estão licenciados ou em obras no estado.

Por

Divulgação

Três usinas de etanol de milho instaladas em Dourados, Sidrolândia e Maracaju devem processar 2,128 bilhões de litros na safra 2025/2026 e, para isso, precisam de algo entre 4,8 milhões e 5,3 milhões de toneladas do grão — volume que, confrontado com a colheita de 11,139 milhões de toneladas registrada pelo governo estadual em agosto, representa quase metade de tudo o que Mato Grosso do Sul produziu nesta safra. O dado está em estudo da equipe econômica da Aprosoja/MS, divulgado nesta segunda-feira, 21 de setembro de 2026, e muda a leitura sobre o que aconteceu com a cadeia do milho sul-mato-grossense em menos de cinco safras.

Até o fim da última década, o destino do milho de segunda safra produzido no estado era quase binário: ou seguia para o porto, rumo à exportação, ou alimentava aves e suínos nas fábricas de ração. A chegada da indústria de etanol abriu uma terceira saída — e essa saída ficou dentro do estado, a algumas dezenas de quilômetros do campo, o que reduz o frete pago pelo produtor e tende a sustentar o preço do grão na porteira.

MS na segunda posição nacional — e crescendo

Com esse ritmo de processamento, Mato Grosso do Sul já responde por 20,92% do etanol de milho brasileiro, ocupando a segunda posição entre os estados produtores, atrás apenas de Mato Grosso. O milho, que historicamente disputava espaço com a cana-de-açúcar na matriz energética local, já representa 43,21% de todo o etanol produzido no território sul-mato-grossense — uma inversão que há poucos anos seria improvável.

As operações são de duas empresas. A Inpasa mantém plantas em Dourados e em Sidrolândia; esta última tem autorização para 800 milhões de litros por ano e já pediu licenciamento para expandir a 1,1 bilhão de litros. A Neomille, do grupo Cerradinho Bioenergia, opera desde janeiro de 2024 em Maracaju, processando 608 mil toneladas de milho por ano e gerando 161 mil toneladas de DDGS — o resíduo seco do grão, vendido como ração proteica para o gado, o que aproxima a usina de um fornecedor de insumo para a pecuária regional.

Três projetos novos somam mais de R$ 1,9 bilhão

O estudo da Aprosoja/MS menciona uma quarta planta, em implantação em Nova Alvorada do Sul. Mas o rastreamento de licenças nos órgãos ambientais revela um movimento mais amplo. A unidade de Nova Alvorada do Sul é da Atvos, recebeu licença de instalação do Imasul em junho e teve sua pedra fundamental lançada em julho, com investimento de R$ 1 bilhão para processar 642 mil toneladas de milho por ano. A empresa estima entre 18 e 24 meses de obra.

Antes disso, em março, a Semadesc concedeu licença de instalação a uma destilaria em Jaraguari, com investimento de R$ 300 milhões e capacidade para processar 500 toneladas de milho ou sorgo por dia. Em maio, a Atvos firmou com o Imasul o termo de compromisso ambiental de um segundo projeto, em Costa Rica, orçado em R$ 669 milhões e ainda em fase de licenciamento. Somados, esses três empreendimentos — todos com pelo menos uma licença em mãos — superam R$ 1,9 bilhão em investimentos anunciados, segundo levantamento do jornal A Crítica de Campo Grande.

Pressão sobre a oferta: o outro lado do boom

O crescimento da capacidade industrial cria uma conta que o estado ainda não fechou. O estudo da Aprosoja/MS usa como referência a safra 2024/2025, de 13,9 milhões de toneladas. Mas a safra 2025/2026, a mais recente, ficou em 11,139 milhões de toneladas — e já com apenas as três usinas hoje em operação, a demanda por milho se aproxima de metade dessa produção, antes de qualquer nova planta entrar em funcionamento.

O grão que sobra é o mesmo disputado pelas fábricas de ração, pela avicultura e pela suinocultura espalhadas pelo estado. Se a área plantada — hoje em 2,2 milhões de hectares — não acompanhar o ritmo de expansão da capacidade industrial, o ajuste deve aparecer no preço pago ao produtor e no custo de quem compra milho para alimentar animal. O próprio estudo da Aprosoja/MS reconhece, em uma linha, que será necessário ampliar a oferta do grão — o tamanho desse desafio, porém, fica mais nítido quando a demanda das usinas é colocada ao lado dos números reais da última colheita sul-mato-grossense.

Fontes: APROSOJA/MS; A CRÍTICA DE CAMPO GRANDE; GOVERNO DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL