Terceiro presidente em 11 dias: cirurgião assume Santa Casa de Campo Grande no caos
Luiz Kanamura, superintendente médico do hospital, toma posse nesta terça enquanto a instituição acumula prisão da ex-presidente, déficit de R$ 13 mi/mês e investigação do MP.
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A Santa Casa de Campo Grande terá seu terceiro presidente em apenas 11 dias: o cirurgião cardiovascular Luiz Alberto Hiroki Kanamura, até agora superintendente de Gestão Médico-Hospitalar da instituição, assume o comando nesta terça-feira, 22 de setembro, no lugar do vice-presidente Heitor Miguel Scheibeler, que respondia interinamente desde a prisão preventiva da presidente Alir Terra Lima, decretada em 11 de setembro no âmbito da Operação Antidotum.
A troca de gestão ocorre em meio à maior crise já registrada no hospital, que mistura colapso financeiro, investigação criminal e incerteza jurídica sobre quem de fato detém legitimidade para comandar a instituição. O comunicado divulgado pela Santa Casa menciona apenas o "afastamento da antiga gestão", sem indicar quem decretou o afastamento, em que data ou com base em qual decisão — lacunas que o estatuto da associação não resolve sozinho.
A névoa jurídica por trás da posseO estatuto da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, aprovado em assembleia de 28 de abril de 2025 e registrado em cartório, estabelece no artigo 23 que a Diretoria Corporativa é eleita em chapa pelo Conselho de Administração — os 18 conselheiros escolhidos em novembro de 2025 na chapa única "Por Amor à Santa Casa", encabeçada por Alir. O parágrafo 2º prevê que, se o substituto imediato declinar, o próprio conselho elege outro nome entre os seus pares.
Há ainda uma dúvida central sobre a situação de Alir: se houve declaração formal de vacância do cargo, Scheibeler seria o sucessor definitivo; se não houve, ela continua sendo tecnicamente a presidente eleita — presa no Presídio Militar — e quem assume nesta terça apenas a substitui temporariamente. As duas hipóteses têm consequências jurídicas distintas, e nenhuma foi esclarecida publicamente pela instituição ou pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
Crise financeira que antecedeu as prisõesA chegada de Kanamura ao topo da hierarquia do hospital não resolve os problemas estruturais que o antecederam. Em 27 de julho, a Santa Casa já registrava déficit mensal acima de R$ 13 milhões. Seis dias depois, trabalhadores protestavam por atraso salarial. Em 29 de julho, cirurgias eletivas foram suspensas — entre elas as cardíacas, vasculares e pediátricas, exatamente a área de especialidade de Kanamura —, e as equipes cirúrgicas ameaçavam sair em bloco caso os pagamentos a prestadores não fossem regularizados até 28 de agosto. O prazo passou sem solução.
Em 3 de setembro, a Secretaria de Estado de Saúde liberou um aporte emergencial de R$ 4 milhões após o hospital reduzir atendimentos. Mesmo assim, em 16 de setembro, o Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de MS registrou boletim de ocorrência por sobrecarga: a equipe, com déficit estimado de cerca de 300 profissionais, passou a acumular coleta de materiais biológicos com o trabalho assistencial depois que um laboratório terceirizado interrompeu o serviço. A Santa Casa respondeu que a situação foi temporária e que contratou pessoal para as coletas no mesmo dia.
O que a Operação Antidotum apurouA Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo MPMS com seis prisões preventivas e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia, apura contratos com indícios de fraude. Um deles previa a digitalização de prontuários por R$ 1,8 milhão ao ano durante três anos — total de R$ 5,4 milhões. A investigação aponta que R$ 1,4 milhão foi desviado só no primeiro ano, o equivalente a 78% do valor contratado para aquele período.
O MP também apura contratos da Operadora Santa Casa Saúde com empresas do mesmo grupo econômico registradas em endereço que estava desocupado, cujo proprietário teria ligações com a diretoria. Os pagamentos chegaram a R$ 9,6 milhões em 2025, com prejuízo estimado em pelo menos R$ 3,5 milhões. Segundo o Ministério Público, contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente omitidos dos órgãos de controle — inclusive do Conselho Fiscal, que o estatuto obriga a se reunir mensalmente para fiscalizar a administração. As prisões são preventivas e não representam condenação. A defesa de Alir Terra Lima afirmou que ela "está indignada com a prisão por não ter cometido nenhuma ilicitude" e que solicitaria a revogação da medida.
Fontes: SANTA CASA DE CAMPO GRANDE; MINISTÉRIO PÚBLICO DE MATO GROSSO DO SUL; A CRÍTICA DE CAMPO GRANDE