R$ 4,5 bi em usinas e MS vira disputa entre etanol e ração animal
Com 20,9% do etanol de milho nacional, o estado enfrenta gargalo logístico e briga por grão entre destilarias e avicultura — a Rota Bioceânica é a saída projetada para 2027.
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Dourados, Sidrolândia, Maracaju e Nova Alvorada do Sul viraram o epicentro de uma disputa silenciosa que está redesenhando o agronegócio de Mato Grosso do Sul: de um lado, usinas de etanol que juntas atraíram R$ 4,5 bilhões em investimentos privados desde 2022; do outro, a cadeia avícola e suinícola, que depende do milho para ração e agora divide o grão com um vizinho industrial de grande apetite. O estado já responde por 20,9% de toda a produção brasileira de etanol de milho, com projeção de 2,128 bilhões de litros na safra 2025/2026 — o que o coloca firmemente na segunda posição no ranking nacional, atrás apenas de Mato Grosso.
O crescimento acelerado das plantas industriais alterou o destino do grão produzido em MS. Na safra 2024/2025, os produtores colheram 13,9 milhões de toneladas em mais de 2 milhões de hectares. Desse total, apenas cerca de 2 milhões de toneladas seguiram para exportação in natura — uma inversão de rota que, até poucos anos atrás, seria impensável num estado cuja safra de milho tinha o porto como destino quase certo.
Usinas criam terceiro comprador e inflacionam o milho dentro do estadoA chegada das destilarias mudou a aritmética comercial de quem planta milho em MS. Antes, o produtor tinha basicamente dois caminhos: vender para o mercado interno de ração ou embarcar para exportação. Agora, as usinas instaladas no próprio estado entram como um terceiro comprador de peso — e com músculo financeiro para competir pelo grão na porteira. "A instalação das usinas acrescenta um novo comprador de grande porte dentro do próprio estado, criando uma terceira alternativa de comercialização para o grão. Além disso, a proximidade entre as lavouras e as indústrias pode reduzir a distância percorrida pelo milho e, consequentemente, a exposição aos custos logísticos das operações de longa distância", avaliou Linneu Borges Filho, analista de Economia da Aprosoja/MS.
O efeito direto foi a valorização interna do cereal. O Valor Bruto da Produção (VBP) do milho saltou 88,1% em 2025, chegando a representar 16,8% de todo o VBP agropecuário estadual. Para o produtor, é sinal de preço melhor na praça. Para quem cria frango ou suíno na região, é pressão sobre o custo de ração — e consequentemente sobre a margem. A disputa entre as cadeias, que até recentemente era discutida em tom especulativo, tornou-se concreta no dia a dia das negociações.
Frete rodoviário ainda engole até 60% do preço da carga nos portosA industrialização do milho dentro do estado resolve parte do problema logístico — afinal, o grão não precisa mais cruzar o país em caminhão até Santos ou Paranaguá. Mas o processo industrial gera um novo desafio: os subprodutos. Em 2025, as destilarias sul-mato-grossenses produziram 1,4 milhão de toneladas de grãos secos de destilaria (DDG), dos quais 1,15 milhão de toneladas foram exportadas para Vietnã, Turquia, Nova Zelândia e os primeiros lotes com destino à China.
Para chegar a esses mercados, o DDG precisa passar pelos mesmos corredores sobrecarregados que o milho bruto tentava evitar. O modal rodoviário ainda movimenta cerca de 80% da safra estadual, e o frete pode consumir até 60% do valor da carga nas rotas até os portos marítimos — percentual que corrói qualquer vantagem competitiva construída no campo. É esse gargalo que torna a conclusão da Rota Bioceânica tão estratégica para o setor.
Rota Bioceânica: corredor pelo Paraguai e Chile na mira de 2027O corredor rodoviário que atravessa o Paraguai e a Bolívia até os portos chilenos do Pacífico é apontado pelos setores produtivo e industrial como a alternativa mais viável para desafogar o escoamento de etanol e DDG sem depender dos terminais saturados do Sul e Sudeste. A obra está prevista para ser concluída em 2027 e, se entregue no prazo, deve encurtar os prazos de entrega ao mercado asiático, reduzir tarifas alfandegárias e melhorar a competitividade da cadeia energética construída em MS na última década. Para cidades como Dourados e Ponta Porã — que já vivem do comércio de fronteira — a rota representa também um vetor de desenvolvimento regional que vai além do agronegócio.
O desafio agora é sustentar o ritmo de expansão sem que os gargalos de transporte e a disputa interna pelo grão freiem o que pode ser a maior transformação do campo sul-mato-grossense em gerações. Com tecnologias que aumentam a eficiência do milho no etanol sendo desenvolvidas no país, o setor em MS tem mais motivos para correr.
Fontes: APROSOJA-MS; RCN67