A Prefeitura de Ponta Porã reuniu nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, profissionais de saúde do município e de cidades vizinhas da fronteira para um curso de capacitação sobre os efeitos do El Niño na saúde da população. O evento, que começou às 8h e ocupou todo o dia, foi promovido em parceria com os Governos Estadual e Federal e teve como pano de fundo um dado que chamou atenção logo na abertura: pesquisadores da Universidade de Chicago estimam que o fenômeno climático pode estar associado a mais de 450 mil mortes no mundo, das quais 13,5 mil seriam registradas no Brasil entre setembro deste ano e fevereiro de 2027.
A iniciativa expõe uma preocupação que vai além do calendário de chuvas ou estiagem: como o poder público municipal, historicamente mais fragilizado em recursos, vai lidar com uma demanda de saúde que tende a crescer justamente na faixa de fronteira, onde o fluxo de pessoas entre Brasil e Paraguai já exige coordenação extra dos serviços públicos. A capacitação segue diretrizes do AdaptaSUS e do Vigidesastres, programas do Ministério da Saúde voltados à preparação do SUS diante de eventos climáticos extremos.
Na abertura do evento, o prefeito Eduardo Campos disse que a mobilização mostra que municípios e governos estadual e federal já tratam as mudanças climáticas como problema concreto, não hipótese distante. "Esse evento é muito importante para que possamos discutir essa questão e elaborar propostas concretas para solucionar problemas que podem impactar diretamente a vida dos nossos cidadãos", afirmou.
Campos também apontou o ponto mais sensível da pauta: de onde sairá o dinheiro. "Temos que fazer as adaptações necessárias como forma de prevenção e discutir também a questão do financiamento, porque isso pode representar uma sobrecarga para o município, que já sofre com insuficiência de recursos", disse, defendendo uma proposta "exequível e financiável" para políticas de prevenção voltadas a quem ele descreveu como população mais vulnerável às mudanças climáticas.
O secretário municipal de Saúde, Daniel Kayatt, usou um exemplo histórico para justificar a urgência do tema: a onda de calor que matou mais de 15 mil pessoas na França em 2003, a maioria idosos e crianças, por falta de planos de contingência. "Às vezes acontecem coisas relacionadas ao clima e a gente nem percebe o quanto estão relacionadas com a saúde", afirmou, defendendo que Ponta Porã e os municípios vizinhos saiam do encontro com um plano de contingência conjunto.
Quem abriu a programação técnica foi Serafim Maggione Júnior, da Coordenadoria de Vigilância em Saúde Ambiental e Toxicológica, representando o secretário de Estado de Saúde, Maurício Simões. Ele detalhou a projeção de mortes ligadas ao El Niño e explicou que a capacitação busca alinhar a atuação dos municípios de fronteira às estratégias já em curso no Estado. Depois dele, Júlia Rudy, da Coordenação-Geral de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde do Ministério da Saúde, participou por transmissão on-line, e Karine Cavalcante da Costa, superintendente de Atenção Primária à Saúde de MS, encerrou o dia com orientações práticas para as equipes de atenção básica lidarem com os efeitos do fenômeno climático na região.
O curso reuniu representantes de outros municípios da fronteira, mas a prefeitura não divulgou lista de cidades participantes nem cronograma de próximas etapas do plano de contingência. Mato Grosso do Sul já vinha se preparando para os efeitos do El Niño em outras frentes, como mostrou o levantamento sobre os impactos do fenômeno no estado, e capacitações semelhantes já haviam sido realizadas para equipes de saúde lidarem com surtos ligados a queimadas.
Fontes: PREFEITURA MUNICIPAL DE PONTA PORÃ