MS vira 2º maior produtor de etanol de milho e disputa grão com pecuária

Estado saltou de zero para três usinas em operação em quatro safras; produção de 2,1 bilhões de litros pressiona logística e preço do milho

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Arte/MSConecta

Mato Grosso do Sul não tinha nenhuma usina de etanol de milho em operação há pouco mais de quatro safras. Hoje são três unidades funcionando — em Dourados, Sidrolândia e Maracaju — e uma quarta em implantação em Nova Alvorada do Sul, um avanço que projeta o Estado para a segunda posição entre os maiores produtores do país na safra 2025/2026, com produção estimada em 2,128 bilhões de litros.

O crescimento redesenha o mapa de quem compra o milho colhido no Estado. Até pouco tempo, o grão sul-mato-grossense seguia majoritariamente para exportação ou para a fabricação de ração. Agora, as usinas se tornaram um comprador de peso dentro da própria porteira, e essa mudança já aparece nos números: dos cerca de 13,9 milhões de toneladas produzidas na safra 2024/2025, apenas 2 milhões de toneladas foram exportadas, segundo levantamento da Aprosoja/MS — o restante ficou no mercado interno, cada vez mais disputado pela indústria.

Milho vira insumo estratégico e disputa espaço com a ração animal

Para o produtor rural, ter uma usina de etanol perto da lavoura é, à primeira vista, uma boa notícia: significa comprador garantido e menos quilômetros rodados até o ponto de entrega, o que reduz parte do custo logístico que historicamente pesa sobre o agronegócio de MS. O Estado cultivou mais de 2 milhões de hectares de milho na safra 2024/2025, área que agora alimenta dois destinos que crescem ao mesmo tempo — a indústria e a pecuária.

É justamente aí que mora a tensão. O milho é peça central na dieta de animais confinados, e o apetite das usinas por matéria-prima pressiona o preço regional do grão, encarecendo a ração para quem cria gado, suíno e aves em Mato Grosso do Sul. Quanto mais litros de etanol as usinas produzem, maior a concorrência por cada saca de milho disponível no mercado local.

Coprodutos das usinas tentam equilibrar a conta para o pecuarista

O setor aposta que parte dessa pressão pode ser amortecida pelos coprodutos gerados no próprio processo de fabricação do etanol. DDG e WDG — resíduos ricos em proteína e energia — retornam ao campo como insumo para alimentação de bovinos, suínos e aves, criando um ciclo em que o milho que sai da lavoura para a indústria volta, parcialmente, como ração.

Essa integração entre lavoura, usina e curral é vista como caminho para equilibrar a cadeia, mas exige planejamento logístico que ainda está em construção: armazenagem, transporte e capacidade de escoamento não cresceram no mesmo ritmo da instalação de novas usinas. O desafio agora é fazer a infraestrutura acompanhar uma indústria que, em poucos anos, transformou o milho de cultura secundária em peça estratégica do agronegócio sul-mato-grossense — tema que já aparece em outras análises recentes sobre o setor, como o mapeamento de usinas que já consomem metade do milho produzido em MS e o levantamento sobre os R$ 4,5 bilhões investidos em novas plantas no Estado.

Fontes: APROSOJA/MS; MS TODO DIA