Fiagro chega a R$ 65,8 bi e 92% dos cotistas ficam com 29% do bolo

Levantamento mostra que investidor profissional, só 7,6% das contas, concentra 71% do patrimônio do fundo que financia CRAs ligados ao agro de MS

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Arte/MSConecta

O Fundo de Investimento em Cadeias Produtivas Agroindustriais, o Fiagro, completou cinco anos com um retrato que contraria a imagem de produto popular vendido ao pequeno investidor: segundo levantamento da Oliveira Trust com base em dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o segmento somava R$ 65,8 bilhões em patrimônio líquido em julho de 2026, mas mais de 70% desse dinheiro está nas mãos de investidores profissionais e qualificados, que representam apenas 7,6% das contas de cotistas.

Do outro lado da balança estão as classes abertas ao público geral, que reúnem 92,4% das contas registradas no fundo — mais de 1,2 milhão ao todo — mas ficam com apenas 28,9% do patrimônio identificado. Na prática, é um produto com base pulverizada, mas dinheiro concentrado, o que ajuda a explicar por que o Fiagro segue crescendo mesmo em meses de saída de recursos da indústria de fundos como um todo — um comportamento que interessa direto a quem em Mato Grosso do Sul depende de crédito estruturado no mercado de capitais para financiar safra, armazenagem ou expansão de área plantada.

Onde entra o crédito que chega ao produtor

A maior fatia dos recursos das classes voltadas ao público geral, 62,4%, está aplicada em títulos de securitização, categoria que inclui os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) — instrumento que financia desde tradings até cooperativas e produtores rurais, inclusive em polos produtores como Dourados, Chapadão do Sul e Rio Verde de Mato Grosso. Outros 21,3% estão em cotas de fundos, 7,6% em imóveis rurais e 2,8% em Cédulas de Produto Rural (CPRs), papel usado por produtores para antecipar recursos da safra.

"Os primeiros anos do Fiagro mostraram que existe demanda para aproximar o mercado de capitais do agronegócio. Agora, os números revelam um segmento mais diverso do que a imagem construída em torno dos fundos de varejo", afirma o CEO da Oliveira Trust, José Alexandre Freitas. Segundo ele, a próxima etapa do fundo vai depender de sustentar estruturas com perfis muito diferentes de investidores e tomadores, sem perder governança nem transparência.

Fiagro resiste enquanto fundos perdem dinheiro

Em julho de 2026, os Fiagros tiveram captação líquida de R$ 755 milhões e acumularam entrada de R$ 6,2 bilhões nos sete primeiros meses do ano, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O dado chama atenção porque, no mesmo mês, toda a indústria brasileira de fundos registrou resgate líquido de R$ 25,3 bilhões — e apenas Fiagros, FIPs e ETFs mantiveram fluxo positivo no período.

A divisão entre bolsa e balcão reforça esse cenário híbrido: classes negociadas em bolsa concentram 69,7% das contas, mas apenas 33% do patrimônio, enquanto os veículos negociados em balcão organizado ou não organizado somam 67% dos recursos com apenas 30,3% das contas. Para a Anbima, ampliar a base de investidores, atrair capital estrangeiro e fortalecer o registro de garantias mobiliárias são passos necessários para que o instrumento continue financiando cadeias do agronegócio — setor em que Mato Grosso do Sul figura entre os principais produtores de soja e milho do país — sem depender apenas do apetite do investidor institucional.

Fontes: OLIVEIRA TRUST; COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS (CVM); ANBIMA; CANAL RURAL