Falta de ureia pode cortar até 100 milhões de toneladas de trigo no mundo

Entidade do setor de fertilizantes alerta para gargalo global de insumo que pressiona custos também na lavoura de MS

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Raffaele Giordano/Pexels

A retirada de 8 milhões de toneladas de ureia do mercado internacional pode derrubar a produção mundial de trigo em até 100 milhões de toneladas, segundo projeção da Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes (IFA) apresentada em São Paulo nesta quarta-feira, 30 de setembro de 2026. A entidade reuniu em sua análise industrial, importância da energia para reparar o custo dos fertilizantes nitrogenados e os efeitos sobre o plantio em todo o mundo.

O alerta chega num momento em que o produtor de Mato Grosso do Sul já convive com margem apertada: o estado é o maior exportador de soja do país em eficiência produtiva por área, mas enfrenta custo logístico elevado até os portos, conforme mostrou o MSConecta em reportagem recente sobre a competitividade da soja sul-mato-grossense. Um encarecimento global de fertilizantes nitrogenados tende a pressionar ainda mais esse custo de produção antes mesmo de o grão sair da lavoura.

Dependência de um único processo industrial preocupa a entidade

A CEO e diretora-geral da IFA, Alzbeta Klein, afirmou que cerca de metade de todo alimento consumido no planeta depende, direta ou indiretamente, do processo Haber-Bosch, tecnologia que transforma gás natural em fertilizante nitrogenado. Segundo ela, um único fabricante mundial responde por volume de insumo suficiente para sustentar a alimentação de quase 5% da população do planeta, o que torna o sistema vulnerável a qualquer interrupção pontual de fornecimento.

"Essa dependência estrutural faz com que instabilidades no fornecimento de energia tenham efeito direto sobre os custos de fabricação, a formação de preços e o comércio de nutrição vegetal", destacou a entidade na análise. Na prática, uma crise energética em qualquer parte do mundo pode se transformar, meses depois, em decisão de plantio mais conservadora dentro da porteira de uma fazenda.

Gargalos no transporte marítimo agravam o cenário

A IFA também citou entraves no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte de insumos e combustíveis, além de travas regulatórias em processos de certificação sanitária de cargas, que atrasam embarques e prejudicam a logística humanitária de grãos em regiões mais dependentes de importação. Para a entidade, fertilizantes, energia e navegação deixaram de ser temas isolados e precisam entrar juntos no planejamento de abastecimento dos países.

Klein defendeu que metas ambientais do setor agrícola sejam testadas contra cenários de estresse, de forma a resistir a oscilações bruscas de preço e a falhas logísticas sem travar a produção. Entre as alternativas apontadas estão a amônia de baixo carbono, fertilizantes de eficiência aumentada e insumos biológicos, acompanhados de linhas de financiamento voltadas à resiliência do produtor e de mecanismos de medição da pegada de carbono da cadeia.