Dourados mapeia 9.197 migrantes registrados desde 2010 e cria base para política municipal

Diagnóstico da Prefeitura mostra venezuelanos como maioria da população migrante e revela que 58,8% não tinham Cadastro Único ao chegar

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Divulgação/PREFEITURA DE DOURADOS

Um levantamento concluído pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) de Dourados reuniu, pela primeira vez de forma sistematizada, o perfil completo da população migrante, refugiada e apátrida que vive na cidade. O documento junta dados de saúde, educação e assistência social coletados ao longo de mais de uma década e deve orientar a prefeitura na criação de uma política pública permanente para esse grupo, hoje atendido de forma fragmentada por diferentes setores.

O retrato numérico impressiona pela escala. Entre 2010 e 2026, Dourados acumulou 9.197 registros de migrantes internacionais, o equivalente a 24,2% de tudo o que foi registrado em Mato Grosso do Sul no período, segundo o diagnóstico da Semas. É a cidade do estado que mais recebe esse fluxo, e os dados municipais mostram por que isso já não é mais um fenômeno passageiro: trata-se, segundo o próprio estudo, de um movimento estrutural e contínuo.

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Venezuelanos dominam o atendimento

Oito em cada dez atendimentos feitos pelo Centro de Atendimento ao Imigrante (CAI) envolvem venezuelanos, que respondem por 88% dos casos registrados pelo órgão. O perfil predominante é de famílias jovens, que chegam por conta própria, sem vínculo com programas de reassentamento, e se instalam principalmente nos bairros Jardim Água Boa, Vila São Francisco, Vila Industrial, Jardim Guanabara e na região do Parque das Nações.

No mercado de trabalho, a inserção se concentra na indústria, com remuneração que não ultrapassa dois salários mínimos na maioria dos casos. O diagnóstico aponta um problema recorrente: profissionais migrantes acabam subaproveitados, ocupando funções abaixo de sua qualificação original, o que trava a integração econômica mais rápida dessa população em Dourados.

Saúde e educação sob pressão crescente

A Atenção Primária à Saúde do município somou 266.028 atendimentos a migrantes entre 2018 e setembro de 2026, envolvendo 15.133 pessoas diferentes. Só em 2025, foram 60.364 atendimentos a 7.541 migrantes distintos na rede pública de saúde.

Na educação, a curva de crescimento é ainda mais evidente: as matrículas de estudantes migrantes na rede municipal saltaram de 55 em 2018 para 1.351 em 2024. Em 2025, a rede registrou 1.646 estudantes migrantes, dos quais 94% eram venezuelanos.

Quase 60% chegam sem Cadastro Único

A assistência social aparece como a porta de entrada mais urgente para quem chega à cidade. O diagnóstico revela que 58,8% dos migrantes atendidos não tinham Cadastro Único, documento que dá acesso a programas sociais do governo federal. A Casa da Acolhida e o Centro POP também relatam demanda crescente, sinal de que a estrutura atual pode não dar conta do fluxo nos próximos anos.

Para a secretária municipal de Assistência Social, Shirley Flores Zarpelon, o estudo muda o status da pauta migratória dentro da prefeitura. "A elaboração do diagnóstico municipal sobre migrantes, refugiados e apátridas deixa de ser um mero levantamento de dados para se consolidar como pilar estruturante do planejamento para a garantia de direitos e da vigilância sócio-assistencial em Dourados", afirma. Segundo ela, o documento "visa mapear o perfil, as principais demandas e a realidade sócio-econômica da população migrante e refugiado ignorados" e vai servir de base técnica para políticas integradas entre assistência social, saúde e educação.

Entre as propostas do diagnóstico está transformar o Projeto Bienvenido, hoje uma resposta emergencial, em política municipal contínua, com financiamento intersetorial e recursos federais, além de indicadores permanentes para medir resultado das ações.

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Fontes: PREFEITURA DE DOURADOS; SECRETARIA MUNICIPAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL DE DOURADOS